menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O problema da tecnologia europeia não é tecnológico

21 0
10.05.2026

A Europa tem capital, talento e infraestruturas. O que lhe falta é alinhamento político e um mercado verdadeiramente único para transformar recursos em poder tecnológico.

Perante a ameaça da Rússia, a ascensão silenciosa, mas imperial, da China e as ambiguidades, ou mesmo deslealdades, da administração Trump, a Europa (sobretudo a União Europeia, mas extensível aos outros países não membros) confronta-se diariamente com a sua fragilidade em matérias da maior relevância.

Da dependência energética à alimentar, das matérias-primas à defesa, sem esquecer a tecnológica. A diferença é que, na energia (e em parte na alimentação) e nas matérias-primas, há limitações naturais que tornam a autonomia difícil, dadas a geografia e a dotação de recursos naturais do continente europeu. Já na defesa e, sobretudo, na tecnologia, não há nada de estrutural ou inevitável, que explique a nossa posição de dependência.

Na verdade, não falta infraestrutura, nem dinheiro, nem talento, nem capacidade à Europa para ser autónoma, ou mesmo dominante, à escala global na área tecnológica. A Europa dispõe de excelentes infraestruturas de comunicações, laboratórios e indústria. E, em termos de capital, basta uma comparação: estima-se que os agregados familiares europeus poupem anualmente cerca de 1,4 biliões de euros, face a aproximadamente 800 mil milhões nos EUA, mas uma parte significativa dessas poupanças acaba por ser investida fora da União Europeia, em vez de financiar escala e inovação no mercado europeu. Quanto a talento, a Europa tem para dar e vender: é o continente com a população mais instruída e continua a atrair capital humano extraeuropeu, precisamente pela qualidade de vida que oferece.

Então porquê esta fraqueza?

A fraqueza tecnológica (e não só) europeia decorre, assim, essencialmente de dois fatores principais: (1) uma união política incompleta no âmbito da União Europeia; e (2) um modelo social que, oferecendo das melhores qualidades de vida do mundo, nem sempre cria incentivos e condições para um crescimento económico dinâmico, rápido e “dominador”.

Quanto ao modelo social dominante na Europa, herdeiro do Estado social e da social-democracia do pós segunda guerra mundial, é fácil argumentar que continua a ser um dos mais bem-sucedidos em termos de qualidade de vida. Mas essa discussão, incluindo os seus trade-offs em matéria de dinamismo económico e risco, merece uma reflexão própria, que deixo para outra ocasião.

Já a questão da união política é incontornável. Por muito que a União Europeia seja, provavelmente, a mais bem-sucedida construção institucional da história da humanidade, promotora de paz, prosperidade e convergência, continua a ser um projeto incompleto. Criou regras comuns, uma moeda comum (para os países da Zona Euro) e um mercado interno; mas preservou tantas exceções,........

© Observador