Memória e martelo
Há certos assuntos que entram numa assembleia já revestidos de tal superioridade moral que qualquer resistência parece, à partida, indecorosa. A escravatura é um deles. O voto do Livre sobre o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravatura e do Comércio Transatlântico de Pessoas Escravizadas, apresentado na passada terça-feira na Assembleia Municipal de Lisboa, nasce precisamente desse território. Parte de uma matéria que, em si mesma, dificilmente suscita oposição séria. Mas, à medida que avança, vai insinuando um modo muito próprio de contar a história e de extrair consequências políticas de factos ocorridos (e resolvidos) há séculos.
Aparecem as expressões do costume, e as categorias pré-embaladas em linguagem de oficina ideológica: “racismo sistémico”, “reparação”, “invisibilização”. Tudo com aquela serenidade que costuma acompanhar palavras que hoje só servem para dizer que sim com a cabeça. O documento liga explicitamente a evocação das vítimas à necessidade de “assumir responsabilidades” e “avançar com medidas de reparação”, reclama a concretização do Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas em Lisboa e inscreve tudo isso numa memória que deve servir para “transformar o presente”. Nada disto é propriamente novo. Mas também por isso, pelo seu exercício perseverante, vai........
