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Humanizar o ensino superior na era da IA: menos medo

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04.02.2026

Há, hoje, uma tensão que atravessa o ensino superior como uma lâmina fina: de um lado, a promessa de ferramentas capazes de acelerar a investigação, apoiar a escrita, oferecer explicações sob medida; do outro, o medo de que a universidade se transforme numa linha de montagem de respostas fáceis, sem autoria e sem demora. O manifesto “Por um Ensino Superior humanizado” descreve esse temor com dureza, ao retratar a IA como uma máquina de lugares-comuns e um terreno fértil para fraude e plágio, corroendo o esforço, o tempo longo e a maturação das ideias que a aprendizagem exige. Mas a força do diagnóstico não resolve o facto central: a IA já entrou, e entrou em massa. A discussão deixou de ser “se” e passou a ser “como”.

Os números ajudam a perceber porquê. Uma compilação recente de estatísticas reporta que, em média, 86% dos estudantes (incluindo ensino superior) usam ferramentas de IA, e que apenas 10% das instituições abrangidas por um inquérito da UNESCO tinham orientações definidas para esse uso. Esta assimetria, adoção ampla, regras raras, explica a sensação de perda de controlo que tantos docentes exprimem. E, no entanto, a saída não pode ser a nostalgia administrada por decreto. Mesmo dentro das instituições, a integração está a acontecer: um inquérito citado pela OCDE refere que, em França, 80% dos docentes do ensino superior já tinham usado IA generativa em 2025, sobretudo para preparar aulas e elaborar avaliações. A IA, goste-se ou não, tornou-se parte do ambiente de estudo e trabalho.

Dito isto, seria ingenuidade pintar vantagens sem olhar para o lado escuro do quadro. As vantagens existem e são concretas. A OCDE sintetiza evidência de ganhos de produtividade docente: num estudo, professores de ciências no ensino secundário reduziram em 31% o tempo de planificação de aulas e materiais; noutro, tutores com menos experiência, apoiados por IA, obtiveram aumentos de 9 pontos percentuais nas taxas de aprovação dos alunos. Em paralelo, a mesma fonte sublinha o potencial de sistemas de tutoria e personalização, algo particularmente relevante quando turmas crescem e os recursos humanos não acompanham.

É por isso que algumas........

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