A grande ilusão do betão: quem pega na colher de pedreiro?
Faltam 300 mil casas, queremos um novo aeroporto, alta velocidade e novas pontes. Entre histeria partidária, hipocrisia sobre a imigração e fetiche centralista, preferimos viver de miragens a encarar a realidade.
O Porto acaba de oferecer o exemplo mais perfeito desta política feita de papel selado. Desde 2021, o PDM obriga determinados empreendimentos a contribuir para a habitação acessível através do chamado zonamento inclusivo. Cinco anos depois, o mecanismo não entregou uma única casa ao município. Entregou outra coisa: um pecúlio de cerca de 33 milhões de euros arrecadados em compensações de promotores que preferiram pagar a construir.
Quando, recentemente, a Câmara autorizou sete promotores a trocar 3.323 metros quadrados de habitação acessível por 1,39 milhões de euros, uma média risível de 418 euros por metro quadrado, num mercado onde a venda na cidade ultrapassa os 3.600 euros, a reação foi tão previsível quanto a regra era inútil: a maioria municipal recuou e admitiu revogar as deliberações. Entre a obrigação que não constrói e a exceção que quase oferece a dispensa, continuam a faltar exatamente as mesmas coisas: casas.
Este episódio não é uma anomalia nortenha. É a radiografia perfeita de como Portugal decidiu enfrentar a crise da habitação: com diplomas pomposos, pacotes com nomes de marca branca e conferências de imprensa em São Bento, convencido de que a realidade se dobra à força do Diário da República.
Não se dobra. As casas não nascem nos discursos dos deputados nem brotam de powerpoints ministeriais. Nascem na lama, no betão, no ferro e nos andaimes. E é aí que a narrativa nacional colapsa: há 300 mil casas em falta e quase 100 mil trabalhadores a menos para as erguer. As contas da habitação não começam nos gráficos das consultoras nem nos slogans de protesto. Começam na poeira do estaleiro de obras.
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