O pobre votou na promessa, o rico recebe os juros
Escrevo já do Brasil. A passagem por Portugal foi curta, mas das que deixam marca, e trouxe-me de volta com a mala cheia de conversas e de saudades. Aterrei a tempo de ver o meu país escolher, pela quarta vez, Luiz Inácio Lula da Silva.
O resultado foi apertado. Lula teve 51,8% dos votos e Flávio Bolsonaro 48,2%, com a contagem praticamente concluída. Quase metade do país votou contra o presidente eleito. Na manhã seguinte, votou o mercado.
E o veredicto foi imediato. Na segunda-feira, o dólar subiu mais de 12% numa única sessão e passou de R$ 4,99 para R$ 5,60. A bolsa de São Paulo caiu cerca de 16% e acionou o circuit breaker, o mecanismo que suspende as negociações quando a queda é excessiva, coisa que não acontecia desde março de 2020, em plena pandemia. Os juros de longo prazo subiram quase dois pontos percentuais de uma assentada, de cerca de 12,6% para perto de 14,5%.
Um contabilista lê estes números como lê um balanço. Não são opiniões, são preços. E o que os preços dizem é que quem empresta dinheiro ao Estado brasileiro passou a exigir mais para o fazer, porque deixou de acreditar que o receberá de volta sem sobressaltos.
A desconfiança tem fundamento. No discurso de vitória, segundo a imprensa brasileira, Lula não disse uma palavra sobre contas públicas. Também não era preciso, porque já o tinha dito durante a........
