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O país que reacendeu a luz

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23.09.2026

Escrevo-vos esta semana da Cidade do Cabo, onde estou a trabalho há mais de duas semanas, e começo por uma banalidade que aqui não é banal nenhuma. São dez da noite e a luz está acesa. Escrevo isto sem ironia, porque há três anos esta frase seria, neste país, uma declaração de sorte.

Em 2023, a África do Sul teve cortes programados de eletricidade em 332 dos 365 dias do ano. Não é gralha. Trezentos e trinta e dois. Chamavam-lhe load shedding, um eufemismo administrativo para dizer que se apagava o país por turnos, bairro a bairro, para a rede não colapsar de vez. Hospitais operavam a gerador. Restaurantes fechavam a meio do serviço. Uma produtora de vinho de Stellenbosch, a uma hora de onde escrevo, contava o gerador entre os seus ativos mais valiosos. Em fevereiro de 2023, o presidente Ramaphosa declarou estado de calamidade nacional e classificou a crise elétrica como ameaça existencial à economia e ao tecido social do país.

O último corte programado aconteceu a 16 de maio de 2025. Quando lerem estas linhas, a África do Sul terá completado perto de quinhentos dias consecutivos sem um único apagão. A disponibilidade das centrais subiu de 54,6% para 65,2%. As avarias não programadas caíram de 32,3% para 22,9%. Pouparam-se cerca de 27 mil milhões de rands em gasóleo de emergência em três anos, qualquer coisa como 1,3 mil milhões de euros queimados em geradores que deixaram de ser precisos. E a S&P subiu a notação financeira da Eskom, a elétrica estatal, pela primeira vez em uma década.

A pergunta que me trouxe a este texto é simples. Como é que um país que a Europa gosta de tratar com condescendência consegue, em três anos, o que continentes inteiros discutem há vinte?

A resposta é decepcionante, e é por isso que é boa. Não houve revolução tecnológica nenhuma. Houve manutenção.

Houve, em primeiro lugar, a coisa mais aborrecida do mundo, parar as centrais a horas para as arranjar, em vez de as empurrar até à avaria. Houve, depois, uma decisão pragmática sobre o nuclear, a extensão por vinte anos da vida dos dois reatores de Koeberg, aqui perto, que produzem energia barata e constante e que uma leitura mais militante........

© Observador