O continente que tem medo do ar condicionado
Vivi em Portugal de 2011 a 2020 e, por ironia do calendário, passei lá um único verão inteiro. Foi o mais quente da minha vida. E lembro-me de uma estranheza que nunca mais me largou, as casas não tinham ar condicionado. Não me recordo de o ver nas lojas de electrodomésticos, entre as máquinas de lavar e os frigoríficos, como se vê em qualquer loja brasileira. Não era um produto em falta, era um produto que não existia no imaginário de consumo.
E antes que o leitor sorria e pense que falo do calor com olhos de brasileiro tropical, esclareço, vivo no Sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, onde neva, onde a geada queima os campos de Junho a Agosto e onde a temperatura, em muitos dias de Inverno, é mais baixa do que em Lisboa ou no Porto. O meu espanto não foi o de quem veio dos trópicos, foi o de quem veio de uma terra fria onde, ainda assim, o ar condicionado é um electrodoméstico como outro qualquer. O IBGE estima que cerca de 30% das residências de Passo Fundo, cidade gaúcha onde neva, tenham aparelho instalado. Mais do que a média portuguesa.
Os números confirmam a memória. Segundo a Agência Internacional de Energia, cerca de 20% dos lares europeus têm ar condicionado, contra perto de 90% nos Estados Unidos. Portugal está em linha com a média europeia, cerca de um quinto das casas, e um estudo do portal idealista apontava 17,8%, com regiões inteiras do interior abaixo dos 5%. No Reino Unido a percentagem ronda os 14%. No país mais rico do mundo, nove casas em dez têm frio disponível ao toque de um botão. No continente que se considera o cume da civilização do bem-estar, oito em dez famílias passam o verão de janelas abertas e ventoinha ligada.
A explicação habitual mistura história e arquitectura, os verões eram amenos, as paredes são grossas, as casas são antigas. Tudo verdade, e........
