A TAP e o complexo do dono
Há uma cena que se repete em Portugal com a regularidade de um ritual. Uma empresa pública acumula prejuízos durante anos, absorve injecções de capital do contribuinte sem contrapartida visível, e quando finalmente chega a hora de a privatizar, o debate público ignora completamente a questão da gestão — e centra-se obsessivamente em quem vai ser o novo dono. Se for estrangeiro, é uma «humilhação nacional». Se for brasileiro, é uma «traição histórica». Se for francês ou alemão, é uma «rendició à Europa». O que nunca é discutido com a mesma intensidade é a única pergunta que realmente importa: quanto custou ao contribuinte português esta obsessão com a propriedade?
A TAP é o caso mais eloquente desta patologia nacional. E a sua história recente — com um empresário brasileiro investigado pelo Ministério Público, uma companhia aérea brasileira a reclamar 189 milhões de euros em tribunal, e dois gigantes europeus a disputar uma participação minoriária numa empresa que o Estado continua a recusar vender na maioria — é um manual de como não se gere um activo público.
Conheço bem os dois lados desta equação. Como brasileiro que viveu em Portugal durante o doutoramento na Universidade do Minho e na Universidade de Aveiro, e que trabalha há anos na estruturação financeira internacional, sei o que irrita o português quando olha para a TAP — e sei também o que o brasileiro vê quando olha para Portugal a gerir uma companhia aérea.
O brasileiro que «comprou» a TAP — e o que ninguém conta
A indignação portuguesa com David Neeleman tem uma narrativa simples: um empresário brasileiro comprou a TAP a um preço irrisório, saiu com dezenas de milhões no bolso e deixou o caos para trás. A narrativa tem elementos reais — mas omite a parte mais inconveniente.
Neeleman, fundador da Azul e da JetBlue, ganhou em 2015 o concurso de privatização da TAP com uma proposta de 354 milhões de euros, dos quais apenas 10 milhões correspondiam à compra efectiva das acções. O resto era capitalização da empresa — injecção de dinheiro numa companhia que o próprio Governo reconhecia ter valor económico negativo entre 36 e 50 milhões de euros. Ou seja: Portugal vendeu uma empresa com valor negativo e ficou indignado com o preço pago.
A história complicou-se em 2020, quando o então ministro Pedro Nuno Santos expulsou Neeleman da TAP, num conflito que custou ao contribuinte 55 milhões de euros pagos ao empresário à saída. O Estado voltou a nacionalizar a companhia — e........
