A Europa viciada no petróleo: o Green Deal e Ormuz
Na última semana, quatro aeroportos do norte de Itália — Milão-Linate, Veneza, Bolonha e Treviso — emitiram NOTAMs, os avisos oficiais à navegação aérea, a informar que o combustível de aviação estava racionado. Prioridade máxima: voos de emergência médica, missões de Estado e rotas com mais de três horas de voo. Para os restantes — os voos domésticos, as pontes aéreas de baixo custo, os turistas da Páscoa —, querosene limitado. Em Veneza e Treviso, o limite por aeronave foi fixado em 2.000 litros. Um Airbus A320 consome essa quantidade em menos de uma hora de voo.
A Europa acabou de racionar combustível de aviação em tempo de paz.
O catalisador imediato é o conflito no Médio Oriente e o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto do petróleo mundial. O preço do querosene em mercados do noroeste europeu atingiu 1.840 dólares por tonelada métrica a 3 de abril de 2026, um valor recorde absoluto — tendo praticamente duplicado em poucas semanas. O CEO da Ryanair, Michael O’Leary, advertiu que entre 10% e 25% do fornecimento de combustível da companhia está em risco nos meses de maio e junho. A SAS cancelou cerca de mil voos. A Air France-KLM prepara cenários de contingência. A Lufthansa chegou a ponderar imobilizar até 5% da sua frota.
Mas o que me interessa analisar aqui não é a crise imediata. O que me interessa é o que esta crise revela sobre a estrutura energética da Europa — e sobre a distância astronómica entre a narrativa política e a realidade industrial.
O Green Deal no espelho da realidade
Há uma pergunta que ninguém em Bruxelas parece querer responder com honestidade: se a Europa esteve a descarbonizar-se a toda a velocidade, como é possível que um bloqueio num estreito a 4.000 quilómetros de Lisboa seja suficiente para racionar combustível nos aeroportos de Milão?
A resposta está nos dados que a Comissão........
