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O país que não sabe mudar

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10.08.2026

Em junho de 2026, o Estado português convocou uma professora falecida para corrigir exames de Física-Química. Não é uma metáfora. Aconteceu. E, no entanto, é a metáfora perfeita: um sistema que nem sabe quem está vivo nos seus próprios quadros propôs-se digitalizar, distribuir e classificar eletronicamente mais de 300 mil provas nacionais. O resultado foi o que se viu: provas mal digitalizadas, com respostas cortadas a meio, exames que desapareciam da plataforma, professores sem acesso aos itens que deviam classificar, notas adiadas de 14 para 17 de julho, alunos com um lacónico “suspenso” na pauta e uma segunda fase empurrada para 20 de julho porque o sistema de classificação eletrónica não estava pronto. Tudo isto num verão em que milhares de famílias jogavam o acesso ao ensino superior.

O reflexo nacional perante este espetáculo é conhecido: culpar a tecnologia. “O digital falhou.” Não falhou nada. Digitalizar papel e distribuir ficheiros por uma rede de classificadores é tecnologia banal, resolvida há duas décadas, praticada todos os dias por bancos, seguradoras, operadoras e por meia dúzia de startups de Braga a Faro. Nenhum destes problemas — uma base de dados desatualizada, um upload que corta metade de uma resposta, uma convocatória enviada a quem já não existe — é um problema tecnológico difícil. É chocante que, em 2026, o Estado português continue a tropeçar em obstáculos que qualquer empresa média ultrapassa sem fazer conferência de imprensa. O que falhou não foi a tecnologia. Foi a gestão da mudança. E a gestão da mudança falha sempre pelo mesmo sítio: por cima.

Comecemos pelo princípio: o recrutamento. O Estado português nunca recruta, para o público, o que o privado tem de melhor. Não recruta porque não pode: porque tem grelhas salariais........

© Observador