O Circo sem rede: Pequeno Manual de Sobrevivência Partidária
Há um género de espetáculo que os portugueses conhecem bem, mais fiel do que qualquer telenovela e com muito menos guionistas competentes: o espetáculo dos partidos a decidirem, semana sim, semana também, o que é que acreditam.
Não é bem uma decisão. É antes uma sondagem que se traveste de convicção. Hoje o partido é a favor de X porque X sobe três pontos nas redes sociais. Amanhã é contra X, porque um estudo qualquer, feito por um instituto que ninguém consegue localizar num mapa, diz que X já não agrada aos indecisos de Leiria. Os princípios, esses, ficam guardados na gaveta ao lado das promessas eleitorais, por baixo de um maço de comunicados de imprensa nunca lidos. Chama-se a isto, tecnicamente, “escuta ativa do eleitorado”. Chama-se a isto, honestamente, não ter espinha dorsal.
O resultado é previsível: partidos que já não sabem apontar, com uma mão no coração, aquilo em que acreditam sem primeiro verificar aquilo em que o eleitorado acredita que eles deviam acreditar. A identidade deixou de ser uma bússola e passou a ser um vento. Sopra para ali, vamos para ali. Sopra para acolá, adaptamo-nos, com a agilidade de quem sempre pensou assim, mesmo que ontem tenha jurado o contrário em direto.
E depois há a segunda parte do espetáculo, que costuma acontecer nos bastidores mas que, com a devoção de um........
