O nosso pão de cada dia. Os arqueólogos do pão
Cozer e cozinhar pão tradicional transformou-se num verdadeiro símbolo de identidade e resistência cultural. Dos mercados de bairro aos grandes roteiros gastronómicos, o consumidor contemporâneo aprendeu a distinguir o pão verdadeiro, exigindo qualidade, honestidade e um profundo respeito pelos ingredientes fundadores: farinha, água, sal e cultura viva da massa-mãe e, acima de tudo, o tempo que ele merece.
No prédio onde vivia com os meus pais havia uma daquelas padarias de bairro, onde as pessoas não iam só comprar pão; iam sobretudo comentar a vida alheia. Não gostava muito de lá ir e a verdade é que nunca gostei de carcaças. Aquele pão branco, insuflado à força pela ação dos químicos, oco em forma e em sabor, que rapidamente ficava duro e que aos domingos se comia em torradas porque, nessa altura, nesse dia, não havia pão fresco. A torradeira fazia o milagre de ressuscitar um pão já endurecido à força do calor e da gordura da manteiga. Sempre preferi o pão com estofo, aquele que carrega a geografia e os caprichos de cada região. Na minha memória gustativa, o pão verdadeiro sempre teve cara e origem próprias.
Na gastronomia portuguesa, ele tanto serve de acompanhante como assume o papel principal. A riqueza do pão em Portugal reflete diretamente os climas e os recursos de cada região, uma diversidade que hoje sobrevive graças à aliança entre a sabedoria ancestral e a nova vaga de artesãos e cozinheiros que recusam deixar morrer este património. Não olhar para o pão como um mero alimento, mas como um monumento cultural vivo.
A Paisagem do meu Pão
Nas zonas montanhosas e húmidas do Minho e de Trás-os-Montes, o trigo historicamente escasseia ou não vinga com a mesma facilidade. A solução encontrou-se nos........
