Preto no branco
1. Senhor, perdoa-me porque pequei. Perdoa-me porque sou “racista”. Sou “racista” à minha maneira. Sou “racista” à minha maneira, porque este racismo, pelo menos, não o fui buscar aos Avós, à cor da pele, aos mapas do império, às teorias da pureza do sangue ou a qualquer dessas velhas imbecilidades com que os homens tantas vezes procuraram encontrar na biologia a superioridade que não conseguiam demonstrar pela vida. O meu “racismo” é de outra raça. Divido os homens, como os bons racistas. Julgo-os. Faço distinções entre eles e, pior ainda para os novos confessores da virtude pública, não tenho intenção de deixar de as fazer.
Reconheço duas grandes “raças” de homens: a dos homens decentes e a dos homens indecentes. Dos primeiros, gosto. Dos outros, se me permitirem, guardo as devidas distâncias. Tenho medo do contágio. E, agora que o disse, apercebo-me: já pequei outra vez. Senhor, perdoa-me novamente.
2. A cor da pele interessa-me pouquíssimo. Quase nada. Que pode ela dizer-me acerca de um homem? Que é branco? Que é negro? Que nasceu deste lado do mundo ou daquele? Muito bem. E depois? Quero saber outra coisa. Quero saber se cumpre a palavra dada quando já não lhe convém. Se trata decentemente aquele de quem nada precisa. Se consegue ter poder sem se embriagar com ele. Quero saber se mente, se trai, se humilha, se procura sempre alguém mais fraco onde descarregar a pequena miséria que transporta consigo. A melanina diz-me muito........
