A ditadura da opinião
Há uma fome de falar que nos tomou a boca. Uma fome nervosa, aflita, quase sem pensamento. Acordamos e o mundo já grita. As notícias entram pela casa como vento sujo, as redes sociais pedem-nos uma frase, os debates erguem o dedo, as vozes multiplicam-se até parecerem uma só máquina. E nós, para não ficarmos fora da máquina, dizemos qualquer coisa. Uma sentença curta. Um juízo ainda quente, ainda sem ossos. Falamos antes de saber. Falamos antes de sentir. Falamos porque o silêncio passou a parecer culpa. Há acontecimentos que ainda nem acabaram de acontecer e já estão cercados por opiniões. Vêm de todos os lados, com a pressa dos insetos sobre a luz. Ninguém esperou pelos factos. Ninguém deixou a verdade respirar. Basta uma notícia fragmentada, uma imagem sem corpo, uma frase arrancada ao seu lugar, e logo se forma uma multidão de certezas. Cada um levanta a sua pequena bandeira e chama-lhe pensamento. Mas o pensamento, quando existe, não corre assim. Anda devagar. Tropeça. Volta atrás. Hesita. Precisa de sombra.
E talvez eu devesse calar-me aqui. Talvez este texto seja já uma pequena traição ao que defende. Porque estou a escrever contra a necessidade de dizer e, ao escrevê-lo, cedo também ao impulso de dizer. Ergo a minha opinião contra a ditadura das opiniões e, ainda que o faça com mais demora, com mais pudor, com uma espécie de cuidado, continuo dentro da mesma sala cheia de vozes. Talvez apenas fale mais baixo. Talvez apenas tenha........
