Os Católicos
As almas caridosas do Observador arranjaram-me um novo trabalho, como editor da opinião do jornal. É essa incumbência que, directa e indirectamente, aqui me traz. A via directa é como um tapete rolante: explica-se sozinha; a indirecta é fácil de explicar.
Uma das primeiras coisas em que se repara, quando se enfrenta a atulhadíssima caixa de correio do Observador, é na enorme vontade que os leitores têm em escrever sobre os católicos e o catolicismo. Uma das seguintes, é a pouca vontade que os leitores têm de ler sobre aquilo que escrevem.
Esta contradição não é tão absurda quanto parece. Na verdade, exprime um desconforto próprio de quase todos os problemas entusiasmantes. É tão próprio de um problema gerar vontade de o resolver como respostas insatisfatórias; a vontade de escrever sobre o Catolicismo mostra que há um pressentimento geral de que o mundo católico está, de algum modo, mal enquadrado no discurso sobre o nosso tempo; e o pouco interesse que os textos geram acicata a vontade de escrever sobre ele: o que quase toda a gente tem para dizer sobre a relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo é um furioso “não é assim!” sobre o que os outros dizem.
Os acusadores multiplicam-se, então, em correcções de doutrina. Citam o passo do catecismo que acusa Ventura de heresia ou a hermenêutica do Levítico que nos exime de considerar estrangeiros os estrangeiros, e os leitores amarfanham o ecrã e atiram-no ao cesto dos papéis porque, apesar do Afonso Costa, ainda estamos num país em que quase toda a gente teve catequese e o problema não é de........
