Regressar a Ormuz e outras lições aprendidas da guerra
Portugal devia regressar a Ormuz para ajudar Donald Trump a vencer esta guerra? O governo esteve bem em dizer que não. Iremos olhar para o passado de Portugal na região e as lições que daí podemos tirar para hoje, bem como para cenários concretizados e futuros.
A pressão dos EUA para uma presença naval europeia no estreio de Ormuz foi um dos cenários que avancei e que se concretizou. Era provável que quando Trump percebesse as dificuldades e custos de uma operação de escolta naval no estreito de Ormuz, tentasse transferir a despesa e o risco para outros. Fê-lo no seu estilo sultanístico, ou seja, autocentrado e unilateral: pelas redes sociais, sem consulta prévia, sem conversações entre Estados-Maiores para se perceber o que é que os EUA estavam a planear e a pedir. A única resposta possível era não. Foi o que fizeram os aliados europeus, da grande Alemanha, ao pequeno Luxemburgo, ao médio Portugal. As recentes declarações feitas por uma série de aliados, incluindo o Japão, de que ajudam, mas em condições que não se verificam, parecem ser só uma forma mais diplomática de dizer que não.
Sim, todos pagamos o preço pela maior crise no mercado da energia – segundo o diretor da Agência Internacional de Energia – porque este é um mercado global. Claro, o regime iraniano é péssimo para os iranianos e para o Mundo. Mas garantir a segurança marítima no Estreito de Ormuz no meio desta guerra é uma missão de elevado risco, mais ainda com um aliado tão imprevisível como Trump. Até nas páginas do Spectator, a revista conservadora britânica, se defende que é precisamente essa a posição que a Grã-Bretanha deve tomar – dizer não a Trump.
Portugal, aliás, já fez um grande favor aos EUA no contexto desta guerra. Ao contrário da Espanha e da Grã-Bretanha, permitiu um uso pouco limitado da Base das Lajes desde o início. Não vi ainda qualquer agradecimento público ou retorno do lado dos EUA. Aliás, desde Obama que os EUA andam a declarar aos sete ventos e aos cinco continentes que querem reorientar as suas prioridades para o Indo-Pacífico. Na Estratégia de Segurança Nacional, de 2025, a Administração Trump passou o Velho Continente para uma terceira ordem de prioridade, depois das Américas e do Indo-Pacífico. E ainda aproveitou para apontar o dedo ao colapso civilizacional da Europa. Agora, os primeiros a quem pedem ajuda é ao continente em colapso civilizacional?
Mais, Trump passa o tempo a denegrir o poder militar da Europa. Ainda ontem, frustrado por o Irão não se ter rendido e pela negativa dos europeus, acusou-os de cobardia e de serem um tigre de papel, ao mesmo tempo que afirmava, com a sua habitual coerência argumentativa que esta seria uma missão “fácil” que os europeus poderiam facilmente levar a cabo “sem risco”. Claro que tudo isso é falso. O conjunto dos países europeus membros da NATO tem meios navais significativos, de porta-aviões a submarinos nucleares. Alguns precisam de ser modernizados e as prioridades revistas para lidar com as ameaças atuais, mas isso é assim por todo o lado, inclusive nos EUA. Por exemplo, os EUA desinvestiram perigosamente na capacidade anti-mina , têm apenas 4 navios draga-minas. A China e a Rússia têm, respetivamente, 45 e 35 e os aliados europeus também têm muito mais do........
