Sempre que há uma crise há uma oportunidade
Nestes tempos de grande perturbação internacional, em que assistimos a um proliferar de conflitos bélicos que, além da desgraça que provocam nos povos que neles estão envolvidos, resultam em dificuldades para a sociedade em geral e para a economia mundial em particular, é também um tempo que propicia a avaliação dos nossos caminhos, seja a nível pessoal, seja como comunidade ou país.
Ora, Portugal tem vindo a seguir um caminho, que delineou há já algumas décadas, fruto das consequências de uma revolução, da perda de territórios ultramarinos, mas acima de tudo, condicionado por uma visão política de esquerda, errada, que olhava tudo o que vem do passado como aquilo que teria que ser destruído, que se focava quase exclusivamente numa aproximação à Europa e na quase exclusiva dependência do poder dessa região.
Fosse nas suas opções políticas, culturais, económicas ou geográficas, Portugal despiu-se de toda a sua cultura atlântica, para se fechar numa Europa em que pouco podia comandar ou mesmo influenciar, pois nada de diferente tínhamos a oferecer.
Ao longo das décadas que seguimos nesse caminho, abdicámos verdadeiramente de dois polos de desenvolvimento que nos caracterizam como país e que são factor de diferenciação neste espaço europeu em que nos incluímos.
O Mar, território que representa 1,7 milhões de quilómetros quadrados do nosso território – que em terra apenas temos 92 mil quilómetros quadrados – é claramente um recurso identitário da nossa cultura e que esteve sempre ligado aos grandes momentos da nossa existência.
Por outro lado, esta ligação ao mar levou-nos a desenvolver uma das nossas mais extraordinárias qualidades que é a nossa capacidade de intermediação e que caracterizou absolutamente a nossa forma de explorar o Mundo.
Ao contrário dos nossos vizinhos espanhóis, que foram obviamente reconhecidos como promotores de um império de conquistadores, os portugueses fizeram todo o seu caminho através da relação com os povos que iam encontrando por esse novo Mundo, o que de outro modo teria sido impossível de concretizar, tal era a diminuta dimensão da nossa população.
A relação com os povos que constituem, nos dias de hoje, a Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa, é outro dos vectores que podemos hoje voltar a olhar e a promover, para que possamos criar alternativas de desenvolvimento, em face da crise que enfrentamos e como factor de distinção relativamente aos restantes países do Mundo ocidental.
A capacidade de comunicação e de adaptação ao mercado africano em particular, mas essa mesma capacidade que temos para nos relacionarmos com outros povos tem sido completamente deixada ao abandono, quando é ela a maior oportunidade de nos distinguirmos e promovermos o nosso crescimento como país na Europa e no Mundo.
A transformação de Portugal numa plataforma internacional de serviço aos restantes países, juntando a nossa extraordinária localização geográfica ao excelente dom de diálogo e à dimensão do mar que controlamos, permitir-nos-á atrair investimento e actividade que alterará profundamente a nossa situação como país, passando de conduzido a ter parte na condução.
Se considerarmos o território marítimo, Portugal é já um país com grande dimensão e se lhe somarmos os dois milhões e quatrocentos mil quilómetros quadrados que estamos a reclamar junto da ONU para ser parte da nossa plataforma continental, então seremos um país com uma dimensão superior ao subcontinente indiano.
Se considerarmos que tudo o que está em terra é já conhecido e que o futuro está no que viermos a ser capazes de extrair do mar, então concluiremos que vale a pena mudar o nosso caminho.
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