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Portugal: perante o novo regime climático, o que correu mal?

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18.02.2026

Os eventos meteorológicos extremos que atingiram Portugal Continental entre o final de janeiro e meados de fevereiro de 2026 não foram um episódio isolado de mau tempo invernal. Foram um teste sistémico ao Estado, às infraestruturas e à capacidade de governação num contexto de agravamento climático. E, nesse teste, ficaram expostas fragilidades que não podem ser ignoradas pelos decisores políticos.

A sucessão de depressões extratropicais profundas, alimentadas por rios atmosféricos, configurou aquilo que a comunidade científica descreveu como um “comboio de tempestades”. O comportamento anómalo do Anticiclone dos Açores, com deslocação persistente para sul e enquadramento numa fase negativa da Oscilação do Atlântico Norte, abriu um corredor direto para a entrada sucessiva de sistemas depressionários na Península Ibérica. Tempestades como Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta encontraram solos já saturados, linhas de água no limite e infraestruturas envelhecidas.

Os registos falam por si. Rajadas de 209 km/h em Soure, associadas à tempestade Kristin, superaram anteriores máximos registados no país. A precipitação acumulada em janeiro atingiu 233,4 mm, cerca do dobro da média 1991-2020. A intensidade horária de precipitação ultrapassou, em vários locais, valores médios mensais em poucas horas. O oceano, com temperaturas médias próximas dos 21°C em pleno inverno, forneceu a energia latente necessária para episódios de ciclogénese explosiva, incluindo fenómenos como o sting jet.

Não se trata apenas de meteorologia. Trata-se de um novo regime climático que torna obsoletas muitas das normas de projeção baseadas em períodos de retorno de 50 ou 100 anos.

Infraestruturas, entre o cíclico e o crítico

É essencial distinguir danos expectáveis, ainda que onerosos, de falhas em infraestruturas críticas com potencial de colapso sistémico.

Há infraestruturas cuja exposição a eventos invernais é recorrente. Sistemas de drenagem urbana de pequena escala, vias secundárias em encosta, mobiliário urbano e estruturas ligeiras sofrem desgaste cíclico. Aluimentos pontuais, inundações de caves ou cortes temporários de estradas locais podem enquadrar-se num regime de risco conhecido. O Despacho n.º 1776-A/2026 introduziu, aliás, uma mudança relevante ao proibir a simples reposição do estado anterior, exigindo adaptação e melhoria estrutural.

Contudo, o que se verificou, agora em 2026, ultrapassa o domínio do desgaste expectável.

A rede elétrica deixou 76 mil pessoas sem energia após a passagem da tempestade Kristin, maioritariamente devido à queda de árvores sobre linhas de média e alta tensão. A falha energética comprometeu estações base de telecomunicações, interrompendo........

© Observador