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A cegueira do urgente

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22.03.2026

Há uma passagem célebre de Séneca que deveria estar afixada em todos os gabinetes ministeriais da Europa: “Não é que tenhamos pouco tempo, é que perdemos muito.” Em março de 2026, esta frase adquire uma ressonância quase literal. Enquanto o oeste dos Estados Unidos regista a vaga de calor mais extraordinária de que há memória para este mês, com temperaturas 15 a 17 graus acima da média e recordes absolutos a serem pulverizados de Sacramento a Phoenix, a Europa ocupa-se a negociar como enfraquecer os seus próprios instrumentos de política climática. Não por ignorância, mas por uma urgência mal definida.

O calor que derrete a neve das Montanhas Rochosas semanas antes do previsto, que ameaça o abastecimento de água de milhões de pessoas e que transforma março numa antecâmara de agosto, não é um acidente meteorológico. É o produto visível de décadas de emissões acumuladas, o resultado previsível de um modelo energético que a ciência condena há trinta anos. Mas o que torna este momento particularmente revelador não é a vaga de calor em si, é o que acontece simultaneamente do outro lado do Atlântico.

A urgência como álibi

Na Europa, a terceira semana de março de 2026 ficará marcada por uma ofensiva coordenada contra a arquitetura regulatória climática do continente. Dez Estados-membros exigiram à Comissão Europeia que antecipe a revisão do sistema de comércio de emissões para maio, “o mais tardar”. A França propôs que o teto de emissões do EU ETS não atinja o zero antes de 2050, invertendo a trajetória prevista para 2039. A Polónia, um dos países mais poluidores da EU, quer reduzir o ritmo anual de cortes de emissões. A indústria........

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