menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O Papa em Angola e as ONGs de vitrine

7 0
previous day

A recente suspensão da ONG brasileira Zuzu for Africa pelo Governo Provincial do Bengo  não deve ser lida apenas como um incidente burocrático. O caso representa o estalido de uma  bolha ética numa era onde a solidariedade se transmutou num produto de consumo digital de alta  rentabilidade. Ao travar uma organização célebre por levar influenciadores para cenários de  vulnerabilidade, o governo angolano pressionado por vozes como C4 Pedro e Sara Cuca, expôs a  ferida do “volunturismo”. Este fenómeno transforma o sofrimento em estúdio, onde o impacto real  é secundarizado perante a necessidade de validar a virtude de quem ajuda através do ecrã. Para  quem, como eu, cresceu com o eco de We Are the World e carrega Angola na raiz, esta “pornografia  da sobrevivência” é um murro no estômago: o sonho de uma mobilização global pela justiça foi  sequestrado por um algoritmo que exige a exposição da miséria para libertar o donativo.

Esta performance evoca o “Complexo Industrial do Salvador Branco” de Teju Cole, uma  estrutura que permite ao privilegiado sentir-se herói sem questionar as causas da pobreza. Mas  focar apenas nos influenciadores é ignorar o papel facilitador de Estados que sequestram a  dignidade do seu próprio povo. A proliferação destas ONGs em Angola é o sintoma de um Estado  que falhou na sua função soberana. Num país onde elites acumulam patrimónios obscenos; com  figuras a deterem centenas de apartamentos em novas urbanizações enquanto populações rurais  vivem nas trevas, a ajuda externa torna-se uma “terceirização da responsabilidade”. O Estado  permite que a saúde de uma comunidade dependa de likes no Instagram, mergulhando o povo  numa subalternidade onde tem de ser “bonzinho” e fotogénico para obter um prato de comida ou  um gerador. É um paliativo que está longe da emancipação, pois reforça a ideia de que o progresso  tem sempre a face do “branco benevolente”, ignorando a soberania e a redistribuição da riqueza  nacional.

Em contrapartida a esta solidariedade de vitrine, a visita do Papa Leão XIV a Angola, em  abril de 2026, trouxe uma clareza moral urgente. Ao denunciar o “extrativismo” e a “doença da  corrupção”, o Pontífice recordou que os tesouros de uma nação não se fotografam para promoção  pessoal. O Papa foi direto: a corrupção é a praga que impede o florescimento. Esta análise revela  o vazio das críticas de figuras como C4 Pedro ou Sara Cuca; embora identifiquem a exposição  indevida, falham ao não responsabilizar o governo pela ausência que a torna possível. Reivindicar  contra a foto sem exigir infraestrutura é uma crítica sem construção. É a idiossincrasia de uma elite  que vê empresários locais doarem geradores à Ucrânia por visibilidade internacional, enquanto a  sua própria casa permanece às escuras. Por que é que a filantropia angolana mira o mundo, mas  ignora o vizinho?

Em última análise, o que está em jogo é a manutenção de um sistema que precisa da  pobreza para se validar. Se nos anos 80 o sonho era erradicar a fome, hoje criamos um ecossistema que a preserva como cenário para a virtude digital de uns e álibi para a corrupção de  outros. A verdadeira solidariedade começa onde termina a lente da câmara e onde o Estado  assume o dever de proteger a dignidade que não pode ser comprada por um pacote de turismo  voluntário. Este é o alerta para Portugal e para a Europa: a “solidariedade gourmet” é um veneno  lento que substitui a empatia real pelo narcisismo estético. A verdadeira emancipação só virá  quando o povo deixar de ser figurante e passar a ser dono da sua própria riqueza, sem precisar de  posar para o próximo post viral.

Receba um alerta sempre que Alzira Diogo Machado publique um novo artigo.


© Observador