Son of a bitch: um sarau cultural
Pelos vistos, e à semelhança do que acontece no “estrangeiro”, agora há uns prémios anuais da música portuguesa. São, conforme o acrónimo sugere, os PLAY. Também para imitar “o que se faz lá fora”, os PLAY consagram-se mediante cerimónia, na qual se distribuem pechisbeques por dezenas ou centenas de “vencedores” e todos ficam muito orgulhosos.
Infelizmente a cópia caseira dos Emmy americanos e de outro embaraço qualquer que os ingleses têm de certeza não se restringe à existência, não senhor. O plágio vai à minúcia e inclui os momentos que uma parte substancial dos alegados artistas aproveita para expelir “sentimentos” acerca da “actualidade”. Antigamente, neste género de pândegas, a sumidade recebia o pechisbeque, agradecia a duzentos familiares, amigos e colegas e sumia de cena. Hoje, ou para aí desde 2017, é rara a sumidade, anónima que seja, que não ande convencida de que possui coisas relevantíssimas a comunicar aos mortais. E os mortais, os mortais e pacóvios que assistem a tais infortúnios, ouvem.
Aliás, quer nos Óscares, quer nos PLAY, quer no Festival de Cinema de Carcassonne, o real objectivo de cada “evento” é justamente o de apurar quem profere a maior quantidade de barbaridades ao gosto do tempo. E provocar aquilo que os “media”, um pouco desesperados, designam por “polémica”. Sem a “polémica”, ninguém notaria que o “evento” se realizou. Com a “polémica”, quase ninguém nota que o “evento” se realizou.
Eu notei os PLAY através de artigo no Observador. Confesso que ignorei a informação alusiva aos galardões convencionais, mesmo ao prémio para a Melhor Co-Participação Vocal em Disco de Fusão Lusófona Alternativa, e, saltitando pelo texto na diagonal, fui directamente às interpretações em que os artistas dão tudo o que têm: o discurso de protesto.
Na categoria Indignação, o primeiro pechisbeque de relevo foi conquistado por Jorge Palma, que após agradecer misteriosamente “aos profissionais do SNS”, redobrou o tom críptico para exigir uma “reforma eficaz” da cultura, “para que as nossas forças não se gastem em vão” (?). A terminar, e já que vinha com um cravo na lapela, o sr. Palma recordou Abril, o espírito de Abril, a liberdade de Abril, os valores de Abril, Abril sempre, etc. De seguida, a cerimónia regressou a 2026.
O segundo pechisbeque indignado coube ao vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal, que a despropósito desatou numa cantilena sobre “a pulsão de morte que domina a miserável época em que vivemos, com as suas manifestações de ódio e de intolerância”. Terminou a pedir que se impeça “o alastrar da peste dos fascismos, essa ratazana nojenta.” Sem dúvida. Eu próprio odeio do fundo das entranhas essas larvas pustulentas que apenas sabem verter ódio. E lembro os versos de apelo à fraternidade que o sr. Canibal assinou: “Ultrapassado o limite do ultraje/Toda a violência/É legítima autodefesa/Também pelo meu relógio são/Horas de matar”. Bonito e sublime, praticamente o Larkin de “An Arundel Tomb” (“O que restará de nós é o amor.”)
Porém, o apogeu do serão ficou a cargo do afamado cançonetista Toy, que ultrapassou pela esquerda baixa os parceiros ao proferir estas palavras movidas a sobriedade: “Nunca digam que a cultura e a política não se misturam, porque a cultura é a melhor arma contra alguns sistemas políticos, como o assassino de crianças Netanyahu e o ‘son of a bitch’, filho da p*** em português, Donald Trump”. Enquanto demonstrava que, além da política, a cultura se mistura perfeitamente com uma sandes de couratos, a Festa do “Avante!” e a iliteracia funcional, o sr. Toy arrecadou três prémios fundamentais de uma só vez: o prémio Cliché para a mais apoplética intervenção anti-Trump; o prémio Anti-Sionismo para a mais escancarada declaração anti-semita a fingir que não é uma declaração anti-semita; e o prémio Calado Como Um Rato (Mas Não Uma Ratazana Nojenta E Fascista), pelo corajoso silêncio que dedicou ao Hamas, ao Hezbollah, à Rússia, ao Irão, à China e, afinal, a todos os terrorismos e ditaduras do planeta. O público presente na sala, gente das artes e do refinamento estético, aplaudiu o sr. Toy em êxtase.
A terminar, houve ainda espaço para que actores lessem, cito o Observador, “um texto a alertar para a propagação ‘online’ do discurso de ódio contra as mulheres”, que curiosamente não mencionou o Islão.
Resta esclarecer que os prémios PLAY foram transmitidos pela RTP, que a RTP é uma estação televisiva que vive da extorsão dos contribuintes, e que é capaz de haver contribuintes que não apreciam ver os respectivos rendimentos delapidados em ajuntamentos auto-congratulatórios, onde idiotas repetem toleimas que tomam por iluminações. É escusado acrescentar que, como os idiotas que os frequentam e consomem, os PLAY podem e devem prosseguir. A RTP é que não.
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