Do deserto ao deserto do TikTok: notas de viagem
Na era primitiva da aviação comercial, leia-se até 2020, geralmente os aviões partiam e chegavam quando estava previsto partirem e chegarem, e os atrasos e cancelamentos constituíam surpresas desagradáveis. Felizmente tudo mudou, e hoje, pelo menos na América e sobretudo na Europa, a surpresa é levantar voo à hora inscrita no bilhete original, sem que dúzias de mensagens no telemóvel alertem para sucessivas derrapagens temporais. Assim, uma pessoa já vai para o aeroporto convencida de que o voo das 14.30 acontecerá, em correndo benzinho, pelas 16.15 ou 19.56, isto se acontecer de todo. Dado que a pessoa continua a fazer questão de aparecer com duas horas de antemão, não vá dar-se a bizarria de não haver atrasos, a vantagem é que nunca perdemos a viagem por nossa culpa. É quase garantido perdê-la, ou baralhá-la com gravidade, por culpa da falta de pessoal causada pelos precavidos despedimentos durante a Covid, ou pelas greves semi-permanentes, ou pelo excesso de tráfego, ou pelas condições meteorológicas, que agora se identificam como alterações climáticas. Mas não por nossa culpa, o que, se para o corpo é uma canseira, para a consciência é um descanso.
Não ia a Nova Iorque há dois anos, e só voltei por dois dias e pressões exteriores. O que a cidade ainda tinha de atraente no início do século, dos diners manhosos e abertos a horas impróprias à reposição de musicais clássicos a preços acessíveis, extinguiu-se aos poucos. Em 2026, à semelhança de 2024 e de 2022, tudo fecha mais cedo, as bilheteiras da Broadway ambicionam movimentar mais dinheiro que Wall Street, as livrarias são raras, a arquitectura contemporânea mutilou com sadismo o skyline da cidade, metade dos edifícios está tapada por andaimes (uma bonificação estética que resulta do elevado custo das obras que a burocracia exige), os taxistas desistiram em definitivo de falar inglês e de ter uma ideia do destino da “corrida”, e há um limite humanamente suportável para a quantidade de........
