Aqui que ninguém nos ouve: um podengo na Odisseia
Esta crónica não é sobre cães, embora deva dizer que gosto de poucas coisas na vida tanto quanto gosto de cães. E que poucas coisas me irritam tanto quanto distinguir-lhes as “raças”. Todos os meus cachorros, actualmente cinco e ao longo do tempo uns quinze, são e sempre foram fruto directo ou indirecto de resgates da rua, com todo o interesse em ganhar os melhores companheiros que um homem pode ter e sem qualquer interesse em exibir as respectivas “raças” – ou marcas, como os carros. Ainda assim, lembro a Maia, uma cadelinha que encontrei no canil da cidade que lhe deu o nome, e que certa ocasião alguém me garantiu tratar-se de um podengo português. Seria um podengo, não importa. Importa que à Maia nem sequer faltava falar: ela falava, um dialecto cujas palavras eu não entendia mas cujo tom se adequava na perfeição à conversa que mantínhamos. Raras vezes discordávamos. Semelhante alegria durou treze anos, até a Maia morrer num acidente trágico e que não quero recordar aqui. O que não deixarei de querer recordar é que a Maia, presumível podengo português, era um conforto e uma esperteza.
Esta crónica também não é sobre cinema, apesar de seguirem dois ou três esclarecimentos irrelevantes. O primeiro é que não vejo cinema de hoje, repleto de “mensagens” e “wokismo”. Ou planos rápidos para disfarçar inépcia e agradar a um público educado no TikTok. Ou filtros e pechisbeques em 3D, que promovem um “ruído” e uma estética insuportáveis. Ou argumentos infantis e diálogos que nenhum ser humano seria capaz de emitir sem uma gargalhada. Ou personagens com as........
