menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

As distâncias combatem-se com decisões

16 0
25.02.2026

Um estudo do Centro de Reflexão da Fundação Belmiro de Azevedo veio informar-nos esta semana que os alunos do Interior e com menos recursos continuam a ser os mais penalizados no acesso ao ensino superior. O Diário de Notícias dedicou duas páginas a este assunto e convém ressalvar, nesse artigo, as declarações que Rui Tomás, secretário-geral do Piaget, fez, onde sublinha que as desigualdades sociais continuam a marcar o acesso ao ensino superior e que estas “não são apenas territoriais, económicas e demográficas”. Nesta conta é preciso englobar todos os gastos, não só a propina: “Quando um estudante vive longe de um grande centro, o custo real de estudar não é só a propina; é o alojamento, o transporte, a distância à família, a necessidade de conciliar trabalho com estudo e, muitas vezes, a ausência de redes de apoio. E há ainda um fator menos visível, mas  determinante: a expetativa. Em alguns territórios, o ensino superior continua a ser visto como algo distante, para os outros, e isso condiciona a escolhas muito cedo”, sustenta Rui Tomás no DN.

Os méritos destes estudos é que eles tendem a confirmar as evidências de quem vive nestes territórios e que tem de lidar diariamente com os custos destas distâncias que alguns insistem em dizer que não existem, pois “somos um país pequeno”. Mas este estudo também nos faz perceber outra coisa: a importância das instituições de ensino superior localizadas no Interior. Elas foram verdadeiros atalhos para muitas gerações que encontraram ali a oportunidade de fazer os seus estudos superiores e não apenas licenciaturas. Muitos jovens fizeram mestrados e doutoramentos, que noutro contexto nunca o fariam, precisamente por causa da impossibilidade de se esbaterem essas distâncias para os grandes centros. A democratização do acesso ao ensino superior, que começou após o 25 de Abril de 1974 não foi apenas a de abertura de mais vagas de acesso às universidades; foi também a capacidade de alargar para o Interior uma rede universitária e politécnica que permitiu  que o número de mulheres e homens com ensino superior aumentasse exponencialmente. A Universidade da Beira Interior, que completa 40 anos em abril,  é um extraordinário exemplo disso mesmo. Bem no coração da Beira Interior cumpre um papel de estreitamento de distâncias, não apenas físicas, mas também de todas as consequências económicas e sociais que elas acarretam e que estão bem patentes neste estudo. O mesmo se passa, evidentemente, com os contributos que os institutos politécnicos de Castelo Branco e Guarda dão. São instituições que, para além de tudo o resto, também tiveram que superar uma outra contrariedade: a do estigma de estarem localizadas no Interior. Hoje, fruto do trabalho dos seus profissionais,  dos posicionamentos de destaque em múltiplos rankings internacionais, da participação em projetos científicos de grande magnitude e impacto, da competência reconhecida nacional e internacionalmente dos seus investigadores e docentes, essa barreira foi vencida. Mas que não se tenham dúvidas de que as instituições de ensino superior, tal como outras entidades aqui sediadas, têm essa barreira invisível para ultrapassar. Mais do que obstáculos físicos, o que ainda hoje tem de se ultrapassar são esses obstáculos que tantas vezes não se manifestam materialmente, mas que permanecem sob a forma de preconceitos.


© Jornal do Fundão