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Os comboios da nossa preocupação

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11.03.2026

Em 1878, a Linha da Beira Alta demorou apenas três anos a ser construída. Num território onde escasseavam infraestruturas tudo se ergueu do zero nesse curto espaço de tempo. Em contraste, a remodelação atual arrastou-se por mais de três anos e meio, sem contabilizar os atrasos no arranque, tendo ficado operacional apenas em setembro passado.

Durante esse período foi a nossa Linha da Beira Baixa que assegurou o transporte de mercadorias. E todos recordamos o fascínio causado pelos comboios “gigantes” que a percorreram a partir dessa altura. Antes disso, esta linha tinha sido modernizada e reaberta até à Guarda, em setembro de 2021, para servir de “desvio” estratégico enquanto a Beira Alta estivesse encerrada. Convém recordar aqui que esta “remodelação” demorou 12 longos anos a concretizar-se.

As notícias mais recentes indicam que, fruto das tempestades ocorridas em fevereiro, a Linha da Beira Baixa não deverá reabrir antes de setembro de 2026. Atendendo ao histórico, é de elementar preocupação questionar se a Infraestruturas de Portugal irá, finalmente, cumprir os prazos estabelecidos. Recorde-se que a intervenção na Beira Alta tinha um prazo “teórico” de apenas nove meses. Se ali se falhou redondamente, que garantias temos que os prazos vão ser cumpridos na nossa Linha da Beira Baixa?

As vias de comunicação exigem previsibilidade, tanto como fator de segurança como de confiança. Sem ela como podem os cidadãos planear a sua vida, as empresas definir estratégias logísticas, ou os operadores turísticos promover os seus produtos num mundo altamente concorrencial?

Nunca devemos esquecer, também, os 15 anos de espera pela abolição das portagens na A23. Hoje, com os combustíveis em escalada galopante, o encerramento da Linha da Beira Baixa é mais uma penalização para um território que representa 14% do país, mas cujas decisões de investimento raramente refletem esse peso relativo.

“Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no presente. Via à minha volta casas acolhedoras caiadas de branco, matas cercadas por sebes, campos cultivados e nas grandes estações podia-se sempre tomar qualquer refresco. Aqui haviam chegado também, como uma brisa, as comodidades dos tempos modernos de Inglaterra, ou do restante mundo civilizado.” Em Hans Christian Andersen, “Uma Visita a Portugal”, 1866.

Era assim que o célebre escritor dinamarquês via o nosso Portugal há 160 anos, um país que liderava, que brilhava e que se apresentava mais desenvolvido do que a vizinha Espanha. Às vezes esquecemo-nos do nosso passado, e é pena!  E qual seria a sua reação se hoje percorresse estas mesmas paragens? O desenvolvimento não é um fado ou um destino geográfico imutável. É outrossim uma opção política e, acima de tudo, uma afirmação da nossa vontade coletiva.

Durante demasiado tempo o país habituou-nos ao conformismo de seguir na retaguarda, de nos limitarmos a aceitar as migalhas do investimento centralista. Recusamos a resignação, pois honrar o suor e a audácia dos nossos avós exige que levantemos a voz contra o atraso. O desenvolvimento futuro e interligado desta região depende agora, como sempre, da nossa união e da nossa exigência.

A nossa fé no desenvolvimento do nosso território não nos permite um esperar passivo, mas sim que façamos ouvir a nossa voz e reivindiquemos o que nos é devido. É tempo de fazer deste território não um “desvio”, mas sim um espaço de desenvolvimento onde todos possam viver com qualidade e com a felicidade a que têm direito.


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