Liderança, sem medo
Chegar primeiro ao golo quase por acidente e deixar escapar a vantagem como se o destino cobrasse juros. O Dragão atravessou oscilações bruscas - uma montanha-russa emocional onde o jogo passou da apatia para o entusiasmo, da esperança para um desfecho de incredulidade amarga. Não se pode afirmar que o F. C. Porto tenha feito o suficiente para vencer, preso durante largos períodos a uma letargia difícil de aceitar em fase decisiva da época, ainda que parcialmente explicável pela intensidade feroz de um Famalicão que entrou como quem disputa momentos irrepetíveis. É no fim que os campeonatos se tornam territórios imprevisíveis, onde a hierarquia perde nitidez.
Houve qualquer coisa de pascal na circulação de bola, resignação que contrastou com a voltagem de um Famalicão a jogar como se cada lance fosse final. Nestas últimas jornadas, os campeonatos tornam-se laboratórios de caráter: quem precisa de provar cresce centímetros; quem julga ter crédito encolhe-se. Os dois golos minhotos nasceram de ressaltos, é verdade, mas a insistência também fabrica acasos. A bola procura quem a procura. E encontrou uma equipa que pressionava, disputava, reagia. Uma equipa que executava as tarefas com a disciplina dos grandes, enquanto o líder parecia menor do que o seu próprio estatuto.
Houve crença, mas faltou intensidade ao F. C. Porto, como se a equipa regressasse da pausa com fé para competir, mas não com a urgência necessária para vencer. Empatar assim dói mais porque não é escândalo nem catástrofe: é insuficiência. E no futebol de abril, quando os pontos pesam como chumbo, a insuficiência paga-se com juros. Mas não faltam razões para acreditar. Ninguém deve ter medo de ser líder.
