Para ler António Lobo Antunes: a poesia no gume da faca
Que a prosa de António Lobo Antunes (1942-2026) é uma prosa “escrita no gume da faca”, expressão que o autor de Memória de Elefante aplicava à prosa de José Cardoso Pires (1925-1998), isso é, para quem o leia, mais que evidente. Mas neste país da incultura servida na bandeja brilhante da escolaridade obrigatória, onde jamais se aprende a ler autores da dificuldade e do fascínio de António Lobo Antunes; neste das licenciaturas à bolonhesa e dos mestrados feitos pelo ChatGpt, e onde os políticos tiram cursos aos domingos, essa mesma expressão é qualquer coisa que se não entende. Que significa escrever “no gume da faca”? E, no caso concreto das letras para música que Lobo Antunes escreveu para Vitorino, esse “escrever no gume da faca” é, antes de mais, escrever lançando mão de uma gama de recursos retóricos que, para a poesia portuguesa em voga, e para o leitor médio que temos em Portugal, é outra estrada perigosa: as letras, os poemas de Lobo Antunes são um transporte no tempo: o leitor tem de mergulhar nos ritmos da tradição popular, no coloquialismo - direi mesmo em certo gosto pelo proverbial, a oralidade vinda das ruas, a gíria, o calão - de um idioma que, hoje, já muitos poderão não reconhecer como património linguístico.
Percorrendo o seu livrinho de versos, na edição que a Dom Quixote publicou em 2002, intitulada Letrinhas de Cantigas, o que encontramos são cerca de 19 composições poéticas que, postas na voz do sul alentejano do grande intérprete (e também letrista) que é Vitorino, ganham, com os arranjos musicais em que uma modulação sul-americana (o tango, o bolero), uma emoção que nasce desse saber escrever com........
