Luís Filipe Sarmento. O surrealismo não morreu
Perante a actualidade da crítica de poesia em Portugal - inexistente, inquinada, feita de amiguismos, sectária, e, como na política indigente em que vivemos, enviesada, cobarde, desatenta ao que se passa fora do círculo dos eleitos, dos escolhidos, dos de-bem-com-deus-e-o-diabo - falar-se de surrealismo e de espíritos irreverentes como Mário de Cesariny, Natália Correia, António José Forte, Mário Henrique-Leiria e, do mesmo passo, lembrar que a História (a da Literatura também) se faz mais de relativismos que de absolutos, isso implica ter noção das omissões e das injustiças, dos esquecimentos estratégicos e das estratégicas maquinações contra outros espíritos irreverentes. Breton o disse: a História é totalitária e o surrealismo age contra a História, trilhando o que é próprio dela: o escrever-se ela, não raro, nessas páginas que ninguém ou poucos irão ler.
O surrealismo de 1924, se depois caiu, pela mão de Breton, em papismos vários, aproximando-se de totalitarismos que antes tinha recusado, a verdade é que permaneceu como um movimento vivo e que vem até ao presente, até esses poetas da Escola Surrealista de Chicago, até autores que pagam cara a sua irreverência, a sua lúcida forma de estar na poesia como na vida: fora dos circuitos que ditam as influências, fora das constelações grupescas (e grotescas) dos festivais onde se vende banha da cobra e onde, cintilantes, os poetas que disseram “Sim” a pôr um poema em rolhas de vinho, mutuamente se elogiam e mutuamente se pagam em versos e em poses de esquerdismo - mas não recusaram a natalícia garrafa de vinho e os 250 patacos com que engoliram mais um pouco da independência, da dignidade e do bom senso e do bom gosto.
Luís Filipe Sarmento, que anda há 50 anos nisto de publicar poemas, recusa tudo isto. E faz bem. O seu original surrealismo - que o é - vem do discipulato de Natália Correia, dialoga com Ferlinghetti e tem em alguns momentos qualquer coisa........
