Elisa Costa Pinto – Chegar aqui: poesia
Muitos são os poetas que, no século XX, se estrearam já tarde na poesia. De entre os mais relevantes que podemos lembrar, António Osório, que se estreia em 1972, com 39 anos, dando à estampa, em edição de autor, A Raiz Afectuosa; Manuel Gusmão, que publica o seu primeiro livro em 1990, Dois Sóis, a Rosa. A Arquitectura do Mundo (Caminho), contando então 45 anos, e, já com mais de 70 anos, Lídia Jorge, que publica Livro das Tréguas (Dom Quixote) em 2019, serão aqueles de mais imediata memória. Elisa Costa Pinto estreia-se, na editora The Poets and Dragons Society, com um livro muito pensado e, até certo ponto, inesperado.
O que significa, porém, uma estreia assim, depois de já se ter passado a idade romântica de qualquer crença na poesia? Talvez signifique que, de outra modo, mais ciente e mais frio, essa crença não deu lugar ao cepticismo, nem foi substituída por isso, que a idade traz: uma espécie de endurecimento defensivo relativamente ao que a poesia pode, ainda, prometer.
No caso deste Contra Corvos, onde ressoam as lições de Poe e de Cesário, o olhar melancólico de Gastão Cruz sobre a Ria de Faro, a poética irónica e amorosa dum Nuno Júdice (“Receita para fazer o azul” é uma arte poética tutelar no contemporâneo e, assim, para a autora e o seu poema “Homem com cão, de Francis Bacon” é, na sua construção problematizante e visualista, profundamente judiciano), o rigor de construção dum Carlos de Oliveira, ou a homenagem devida a Éluard; poesia onde vibra a voz esperançosa de Teresa Rita, as lições de mestres da pintura (Paul Klee, Anselm Kiefer, Francis Bacon), a arte da fotografia de um Samar Abul Elouf, entre tantas outras referências cultas, o menos que se poderá dizer é que, com este livro, a professora que Elisa Costa Pinto também foi (autora, com Paula Fonseca e........
