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Portugal abstém-se. O que isso nos diz?

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03.04.2026

No mês em que se celebra o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, a Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que declara o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade, propondo reparações, pedido de desculpas formal e restituição de bens culturais saqueados. Votaram a favor 123 países. Portugal absteve-se. É o mesmo Portugal cujos ditos parceiros históricos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP),Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé, copatrocinaram o texto, enquanto o Brasil votou a favor. O Governo da Aliança Democrática (AD) escolheu o silêncio.

E esse silêncio não é uma posição neutra: é a confissão mais honesta do que este país continua a recusar fazer em relação a uma dívida histórica que não ficou no passado, que continua a organizar o presente.

Há uma ilusão muito confortável que atravessa a sociedade portuguesa como um fio de água fria a correr por baixo do chão, invisível até ao momento em que apodrece os alicerces. É a ilusão de que o racismo é sempre o outro, sempre o energúmeno que grita ofensas na rua, sempre o caso isolado e escandaloso que aparece nos noticiários. Não. O racismo que faz mal de verdade, o racismo que organiza as vidas e decide quem acede ao quê, é o racismo que ninguém precisa de “querer” para que exista. É o racismo estrutural, inscrito nas instituições, nas normas aparentemente neutras, no imaginário do homem branco, na reprodução dos discursos lusotropicalistas, nos processos que discriminam sem precisar de declarar que discriminam.

A política migratória portuguesa é o lugar onde esta lógica se torna mais visível. O filósofo camaronês Achille Mbembe cunhou o conceito de “necropolítica” para descrever o poder soberano que não........

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