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Atacar, confundir e perder

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08.04.2026

Atacar o inimigo, confundir os amigos e perder os aliados. Em poucas palavras, foi isto que conseguiu Donald Trump ao decidir, com Benjamin Netanyahu, abrir uma nova e brutal guerra no Irão, confiante de que a ação militar seria rápida e concludente. Enganou-se. As consequências da sua arrogância são já muito maiores e globais. E pior: ameaçam prolongar-se por muito tempo, sem que ninguém, verdadeiramente, ganhe alguma coisa com isso – com exceção, claro, dos profissionais das apostas que agora existem sobre as datas de bombardeamentos ou dos especuladores bolsistas com acesso a informações diretas sobre qual será a próxima decisão ou o próximo anúncio de ultimato de Trump.

A economia mundial deu um passo para dentro do inferno. Com a agravante de já quase ninguém acreditar que as consequências são de curta duração, visto que à subida dos preços do petróleo e do gás natural, o mundo também tem de se preparar para a escassez de muitos produtos químicos indispensáveis para diversas indústrias e de fertilizantes necessários para a agricultura. Dessa forma, se o cenário pode ser dramático nos países desenvolvidos, com o aumento da inflação e a quebra no poder de compra, já nas regiões mais pobres poderemos assistir a autênticas tragédias: falta de alimentos e milhões de pessoas atiradas para a fome. Tudo isto em troco de quê?

A forma como Donald Trump tem “corrigido” a definição dos objetivos da guerra apenas demonstra que o triunfo sonhado é cada vez mais impossível. Na verdade, há já algum tempo que ele apenas procura uma saída airosa (que nem precisa de ser honrosa…), com que possa proclamar, uma vez mais, a superioridade da força militar do país mais poderoso do mundo. Mesmo que, no fim, tenha de admitir que o regime tenebroso dos aiatolas vai continuar a governar o Irão – à semelhança do que acontece com os talibãs no Afeganistão –, porventura até mais radicalizado e fortalecido internamente.

Os efeitos no golfo Pérsico poderão ser muito nefastos para os EUA no futuro. Depois de anos a procurarem criar um ambiente de tranquilidade, que lhes permitisse acolher cada vez mais visitantes e novos residentes endinheirados, as monarquias da região veem-se agora prejudicadas devido à parceria com os EUA. E ninguém sabe se o seu objetivo de poderem ser um ponto fulcral para a instalação dos data centers das tecnológicas americanas conseguirá sobreviver à desconfiança que agora se instalou. Até porque aqui também existe um outro choque de realidade: os planos de longo prazo que têm conduzido os investimentos colossais da Arábia Saudita, do Qatar ou dos Emirados Árabes Unidos ficam agora sob grande pressão por causa dos impulsos de curto prazo de Donald Trump e a sua corrida contra o tempo para tentar ficar na História. E, enquanto isso, Israel vai aproveitando a sua ligação com Trump para repetir no sul do Líbano o mesmo tipo de ação militar buldózer que aplicou em Gaza – agora, no entanto, sem a mesma condenação internacional, porque está tudo mais preocupado com a inflação.

Finalmente, esta campanha intensa mas até agora inconsequente no Irão pode contribuir, definitivamente, para o cisma na Aliança Atlântica, com o afastamento cada vez mais sonoro de governos europeus em relação ao atual timoneiro de Washington. Há sinais mais evidentes do que as declarações contundentes de Emmanuel Macron, a postura desafiante de Pedro Sánchez ou até a forma como Giorgia Meloni também decidiu proibir a passagem de aviões militares dos EUA por Itália. Nos últimos dias, foi visível o desconforto de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, face ao otimismo do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, de que as consequências económicas da guerra seriam de curta duração. Surpreendente foi também a intervenção do chefe do Estado-Maior da Alemanha, general Carsten Breuer, em que considerou que os EUA “deixaram de ser um parceiro de defesa confiável”. E, sinal significativo dos tempos que vivemos, na Alemanha até já a extrema-direita AfD cortou com as posições do movimento MAGA americano, de quem se tinha mostrado sempre um parceiro atento e servil.

É esse outro dos resumos possíveis para sintetizar a intervenção desastrosa no Irão. Aquilo que Trump pensava que seria um conflito localizado num país com um regime malvisto por quase toda a comunidade internacional acabou por se alastrar para um movimento sísmico que abre fissuras nas cadeias de comércio e no sistema energético global, lança o pânico nos mercados e mina a confiança de investidores e consumidores, além de ameaçar a arquitetura de segurança em que o Ocidente viveu nas últimas décadas.

Já se percebeu que Trump não tem um plano para o pós-guerra. É bom que a Europa prepare o seu. E se, no próximo domingo, a Rússia de Putin deixar de ter um aliado no poder na Hungria, a Europa terá uma oportunidade de ouro: mostrar união e escolher o seu caminho. Sem falsas ilusões.


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