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As árvores morrem na lama. E os governos?

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17.02.2026

Seria difícil encontrar uma melhor metáfora: árvores que aparentavam ser fortes, algumas delas centenárias e resistentes a muitas intempéries, foram derrubadas, nas últimas semanas, devido à conjugação dos ventos fortes com a saturação dos solos, provocada pelas enormes chuvadas dos sucessivos temporais que assolaram o território continental. A precipitação extrema, durante dias seguidos, amoleceu a terra e, com isso, as raízes deixaram de ter o apoio necessário para segurar a árvore. O fenómeno é conhecido: com o solo transformado em lama, o “efeito alavanca” do tronco sobre as raízes torna-se fatal, e as árvores tombam, mesmo com ventos a uma velocidade que já tinham suportado anteriormente ao longo da sua vida.

Portugal está como essas árvores que, durante anos, pensávamos ser fortes: fragilizado, com todas as suas debilidades à mostra e, nalguns casos, com a confiança no Estado já derrubada. O comboio de tempestades, de que aprendemos a fixar os nomes − Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e mais o que vier… −, não só derrubou centenas e centenas de árvores, fez voar telhados, deixou milhares de pessoas sem energia elétrica, inundou campos, aldeias e cidades, fez desmoronar edifícios e interromper vias de comunicação, como demonstrou o grau de impreparação que, em muitos setores, o País continua a ter em relação às catástrofes naturais.

Os momentos de aflição, em que tudo parece perdido, são aqueles que, no entanto, revelam os verdadeiros líderes. E são também os episódios que, para o bem ou para o mal, definem a confiança que as populações podem ou não ter em quem as governa. Mais importante ainda: as catástrofes naturais são um claro indicador da confiança que se tem no Estado, como um todo. Isto porque embora muitas delas não possam ser evitadas, quase todas podem ser prevenidas e muitas podem ter consequências mais reduzidas, se existirem mecanismos ajustados aos riscos, capacidade de resposta no terreno e uma liderança que, no momento certo, consiga aglutinar meios, vontades e recursos para um mesmo objetivo comum. Em contrapartida, o pior que pode acontecer a qualquer governante ou líder local é as populações sentirem que foram abandonadas ou deixadas à sua sorte, sem que tudo − mas mesmo tudo − tenha sido feito para evitar o seu sofrimento.

A História está repleta de exemplos que reforçam a ligação entre as catástrofes naturais e as mudanças políticas. Num livro monumental em que procurou contar A História do Mundo através das crises do clima, o historiador britânico Peter Frankopan lembrou como, por exemplo, o destino de Cleópatra, a Revolução Francesa e até mesmo a ascensão de Hitler foram influenciados por fatores ambientais. O mesmo acontecendo com o fim de algumas civilizações, mas também de muitas revoluções. Ao longo de séculos, o clima tem funcionado, muitas vezes, como um efeito borboleta, em que, por exemplo, mudanças na precipitação como na temperatura podem contribuir para a expansão ou o declínio de uma sociedade, devido ao impacto que esses fatores têm na agricultura e no comércio.

Na China, por exemplo, está bem documentada a forma como a má resposta dos governantes a catástrofes naturais fez cair imperadores e dinastias. Por isso, atualmente, sempre que ocorre um terramoto ou o país é atingido por um tufão mais forte, soam de imediato os alarmes em Pequim, com receio de que, como acontecia com os antigos imperadores na Cidade Proibida, os milhões de chineses se revoltem porque sentem que os seus líderes perderam o “mandato divino”.

Recentemente, na Alemanha, após as terríveis inundações de julho de 2021, em que morreram mais de 170 pessoas, o candidato democrata-cristão Armin Laschet, que então liderava as sondagens como claro favorito para suceder a Angela Merkel nas eleições de setembro, acabou por ser penalizado nas urnas e desperdiçar essa vantagem, devido à forma irresponsável com que abordou a tragédia.

Assim, embora a vitória de António José Seguro possa ter significado o final de um “comboio de eleições” que dominou o País durante largos meses, isso não significa que a estabilidade política esteja assegurada. A partir de agora, ela estará muito mais dependente da forma como a população, especialmente a das zonas mais atingidas, avaliar a atuação do Governo em todo este processo. Mas também no que Montenegro e a sua equipa (renovada?) fizerem ou não para preparar o País para a próxima e inevitável catástrofe. A lição está à vista: como acontece com as árvores, de nada adianta ter um tronco aparentemente forte e robusto se as raízes estiverem assentes na lama.


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