Saramago e a guerra cultural
Quem não lê José Saramago não sabe o que perde. A extraordinária imaginação, a profundidade das personagens, a criatividade da escrita — eu sei lá. Acho que os críticos mais apaixonados, os que melhor conhecem a sua obra, nunca conseguiram sequer chegar perto de a elogiar o suficiente; que poderá dizer apenas mais um leitor, entre os muitos milhões espalhados pelo mundo fora?
Livros como O Ano da Morte de Ricardo Reis, A História do Cerco de Lisboa, Memorial do Convento ou Ensaio sobre a Cegueira são obras-primas, clássicos universais eternos, textos que podemos ler mil vezes e nos quais encontraremos sempre coisas novas, dimensões diferentes. Bem sei que já não somos o que fomos, que quando pegamos num livro que lemos há 20 ou 30 anos já não somos o mesmo leitor, mas os livros de Saramago têm tantas camadas, tantos mundos, tantas pontas por onde pegar, que parece que estamos a ler um livro novo, que afinal já estava dentro do que tínhamos lido.
Parece que os seus livros vão deixar de ser obrigatoriamente estudados nas escolas secundárias (era assim que se chamavam no meu tempo). Isso, claro está, não altera o que os livros são, nem o que valem, nem o interesse que podem despertar nos mais novos. Estou mesmo convencido de que o facto de serem estudados nas escolas secundárias não aumentou o interesse pelo autor nem fez com que a sua obra fosse mais apreciada e divulgada. Se as coisas não mudaram muito (espero que sim), a forma como eram ensinados e estudados os livros que eram, nesse tempo, obrigatórios não era um bom incentivo à leitura — e até podia gerar alguma repulsa pelos autores. (Tive sorte em ter, na Escola Secundária de Linda-a-Velha, um professor de Português a quem devo grande parte do meu amor pelos livros — sei que também era revisor, como o Raimundo de A História do Cerco de Lisboa, mas não me lembro do seu nome.)
Saramago de fora das leituras obrigatórias: notas agnotológicas sobre um país que desaprende devagar
A questão é outra. O Governo fez uma escolha política. De técnica, esta possível decisão não tem nada. Não há escolha técnica que determine que Mário de Carvalho ou mesmo Camilo Castelo Branco (que é dos meus autores favoritos e que venero) passe a ser obrigatório e José Saramago se torne facultativo. Não vale a pena invocar a sua universalidade, o facto de ser um autor estudado e admirado nos quatro cantos do mundo, de ser Prémio Nobel, ou chamar todos os críticos e professores de literatura do universo.
Lembro-me bem do triste e ignorante Sousa Lara e do respaldo que lhe deu Cavaco Silva, e de como isto soa a mais do mesmo. É parecido, mas não é bem por aí. É o tempo em que vivemos. Uma vitória da cultura de direita sobre a suposta cultura de esquerda em que vivíamos — e não me venham com a desonestidade de dizer que Mário de Carvalho também é comunista: comparar o impacto social e cultural dos dois é como confundir a beira da estrada com a estrada da Beira.
É um aceno ao clima político instalado, que faz de todos os aspetos da nossa vida uma batalha numa guerra cultural que pouco mais faz do que destruir o nosso chão comum. O que se passou no Museu do Aljube ou no Teatro do Bairro Alto não tem o impacto desta enormidade, mas as razões são as mesmas, ou muito próximas.
Não importa a competência ou o bem comum; o importante é ganhar aos outros. Não importa que Saramago seja um extraordinário autor; importa que era comunista.
Parabéns aos autores e promotores desta guerra: estão a ganhar. Entretanto, destrói-se o conhecimento, a cultura e as bases da comunidade — mas esse é o objetivo de todos os revolucionários: destruir.
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