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Atirar este modo de vida para o galheiro!

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15.09.2026

Espero que estejas bem e me perdoes a ausência deste último mês. Por vezes o corpo toma conta da cabeça e a dor toma conta da escrita e não há meio de terminar uma carta sem correr o risco de a tornar banal, inócua ou demasiado reveladora de um estado de alma que não pretendemos partilhar. Não por vergonha, não por orgulho, mas porque o silêncio também alimenta e é uma boa cerzideira. 

Tenho pensado muito no que vale a pena escrever. Falar de vergonha é por vezes um assunto desavergonhado, e talvez seja importante medir e instaurar a distância certa entre a coragem que não se tem para falar de alguns assuntos e o espaço desmesurado que a obscenidade e a insustentabilidade de algumas situações ocupam nas nossas vidas. Corremos diariamente o risco de ocupar um espaço salutar de pensamento livre sobre incómodos que nos desconcertam com lixo e frases feitas que empecilham mais do que esclarecem. Que te estou eu a tentar dizer? Estou a tentar confessar-te que sinto necessidade de me debruçar sobre aquelas vergonhas que estão debaixo do tapete e das quais me gostaria de livrar mas não sei se as posso atirar para o outro lado da barricada. Não sei se as possa passar para o outro lado, reconheces? São vergonhas minhas que tenho de manter deste lado para poder mudar todos os lados. Que quererei eu dizer com isto? 

Nas últimas semanas, talvez meses, tenho colecionado artigos sobre assuntos que me desconfortam e sobre os quais é difícil escrever por falta de vocabulário, opinião formada ou mesmo ignorância. Por exemplo: tive o prazer de me sentar ao lado de Miguel Carvalho numa sessão de autógrafos e de lhe agradecer as múltiplas investigações sobre temas dos quais ninguém gosta de escrever ou mesmo ler. Como o artigo de fundo sobre a violência doméstica exercida sobre homens. Acompanhei, durante anos, um amigo que foi pai de uma gravidez indesejada e a invisibilidade do sofrimento dos........

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