O reconhecimento incipiente da literatura digital e da poesia visual
Na década de 1960, no ensaio A Morte do Autor, Roland Barthes, definia o texto como um tecido de citações, uma imensa compilação de discursos já existentes na cultura. A unidade do texto não reside, assim, na sua origem, mas no seu destino.
Há, deste modo, textos que não se escrevem, tecem-se. Não avançam em linha reta, não obedecem à lógica da frase que conduz o leitor de um ponto ao outro, expandem-se, repetem-se e enredam-se imprevisivelmente. São fios que se entrecruzam, criam superfícies onde o sentido emerge e se vai construindo no próprio ato de ler. Esta conceção do texto como trama reticular encontra uma nova atualidade no contexto da cultura digital. A leitura deixou de ser exclusivamente linear para se tornar exploratória, relacional e, muitas vezes, interativa. O leitor não é apenas intérprete, é participante e “coautor” ativo.
É neste contexto que a literatura digital surge de forma pontual no documento das Aprendizagens Essenciais relativas ao 12º ano de Português (que esteve em consulta até 28 de abril). Importa reconhecer que o documento revela alguma abertura ao digital, ao sugerir textos multimodais, em articulação interartística, dando conta da ampliação dos contextos de leitura proporcionada pelas tecnologias. A possibilidade de integrar literatura digital no contrato de leitura, bem como de promover recriações multimodais (vídeos, banda desenhada ou mesmo videojogos) revela um entendimento da leitura contemporânea na sua pluralidade. No entanto, essa abertura permanece periférica.
O........
