O sistema que nos obriga a negligenciar os filhos. Crónica de Margarida Davim
Rosa Coxa é uma personagem secundária de Esteiros, o romance que Soeiro Pereira Gomes dedicou aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”. Sabemos quase de raspão como ganhou a alcunha. “Sozinha em casa, enquanto a mãe urdia teias na fábrica, caiu da cama abaixo e ficou aleijadinha.” Parece um pormenor sem importância, mas diz tudo de um sistema que obrigava as mães a sair de casa para trabalhar, deixando em casa sozinhas – ou entregues a irmãos pouco mais velhos – crianças de colo. Não trabalhar não era uma opção para estas famílias que contavam os tostões e sentiam na barriga o peso da fome. Estou a usar os verbos no passado e não devia. Os 80 anos que se passaram desde a primeira edição do livro mudaram muita coisa, mas não mudaram tudo.
Sim, o 25 de Abril proibiu o trabalho infantil, há escolas públicas para todos e creches pagas pelo Estado a quem tem a sorte de conseguir uma vaga. Mas a necessidade de sobrevivência continua a obrigar pais e mães a negligenciar os filhos, mais do que gostamos de admitir. Serão muito raros (felizmente) os casos em que crianças pequenas ficam entregues à própria sorte para que os pais vão trabalhar. Mas não é disso que falo. Não é nisso que penso enquanto leio sobre a má sorte da Rosa Coxa.
Pensem em todas as vezes em que, para cumprir um prazo, para estar numa reunião, para atender uma chamada de trabalho, acabaram por deixar os vossos filhos sozinhos diante de um ecrã. A comparação entre a mãe que sai para a fábrica e deixa a bebé sozinha e aquela que a larga em frente de........
