Nacionalismo fake tuga made in China. Crónica de Margarida Davim
Os turistas atropelam-se no final da tarde de sábado. Os vestidos florais, as sandálias com meias, os chapéus ou simplesmente o ar vagamente perdido denunciam-nos. São turistas. É possível percebê-lo à distância, olhando para eles, circulando pela Baixa de Lisboa enquanto o dia de verão acaba. Pergunto-me se se reconhecerão uns aos outros. Se conseguirão perceber que não há por aqui um português, enquanto vagueiam por entre lojas de souvenirs ou param numa montra onde um Cristiano Ronaldo de tamanho real os encara de mãos à ilharga e brincos de brilhantes nas orelhas, incitando-os a comprar uma t-shirt com as cores nacionais, provavelmente feita no Bangladesh ou na China.
O Rossio tornou-se uma espécie de feira. A placa central da praça toda tomada por barracas de madeira, onde se vendem bugigangas asiáticas, comidas gordurosas e bebidas baratas em copos XL ou dentro de cascas de ananases e cocos. Vem de lá uma música pimba de arraial, talvez para dar um ar genuíno e nacional àquele folclore feérico que faz desaparecer as fontes e a imponência da calçada, desenhada à sua volta para um efeito de dignidade que agora ficou completamente atropelado.
Circular pelas ruas da Baixa tornou-se uma estafeta. É impossível andar dez passos sem ser interpelada por um empregado de restaurante com uma ementa na mão. Sou abordada em inglês, espanhol, italiano e português. E uma e outra vez vou repetindo que já jantei, enquanto escapo à caça desesperada de quem vê restaurantes vazios e esplanadas a meio gás, apesar do bom tempo. Há dias, falei com a diretora de um hotel na Baixa que me explicava que os quartos estão quase todos ocupados, mas o difícil é chamar clientes para o restaurante. “Comem sandes”, dizia, com desalento.
O mesmo turismo que recuperou as casas em ruínas é o que agora corrói a alma da cidade como um ataque de térmitas. Estamos a ser comidos por dentro e o que sobra é uma........
