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Já não conseguimos ver este filme

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13.03.2026

O meu pai começou a gravar os ataques a Bagdade. Ver a guerra na televisão era uma novidade. E ele entusiasmava-se a registar nas cassetes VHS as imagens esverdeadas em que as bombas noturnas a silvar pelos ares do Iraque pareciam foguetes, talvez convencido de que aquelas fitas iam durar no tempo, em vez de se perderem no fundo de uma arrecadação, depois de uma mudança de casa, ou de serem simplesmente apagadas porque precisávamos de gravar por cima uns episódios dos Simpsons. As cassetes ficavam na estante da sala, ao lado das VHS com a Guerra das Estrelas, o ET e mais uns títulos de ficção científica. A guerra era uma coisa de filme, por muito que nos garantissem que estava tudo a acontecer em direto.

O José Rodrigues dos Santos não saía dos estúdios da RTP. Nós começámos a saber nomes de mísseis. A Operação Instant Thunder parecia o título de qualquer coisa com o Darth Vader, a Operação Tempestade no Deserto tinha nome de aventura do Indiana Jones. O vilão era o Saddam, com um bigode cinematográfico, bunkers e palácios. E nem nos passava pela cabeça questionar que os bons eram os americanos. No fim, o Kuwait (que até aí não sabíamos que existia) seria libertado, a democracia chegaria ao Iraque e em breve as crianças do Médio Oriente iriam ter vidas mais parecidas com as nossas, talvez comendo Bollycaos no recreio da tarde e rindo das piadas dos Simpsons ou do Alf, um extraterrestre peludo e simpático, que gostava de comer gatos e do qual eu tinha feito a caderneta toda, conseguindo até aqueles cromos difíceis e prateados.

Não se pode dizer que a primeira guerra da qual tive consciência........

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