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Trump, petróleo e poder: a Venezuela e a erosão da ordem internacional

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05.01.2026

A invasão da Venezuela por intervenção armada dos Estados Unidos, culminando na remoção coerciva de Nicolás Maduro do poder, não representa apenas mais um episódio de instabilidade regional. Trata-se de um marco histórico de rutura com o sistema internacional construído após a Segunda Guerra Mundial — um sistema imperfeito, frequentemente violado, mas ainda assim sustentado por limites reconhecidos, regras formais e travões políticos ao uso da violência armada. O que ocorreu em território venezuelano expôs, de forma inequívoca, o abandono desses limites e a substituição do direito pela coerção aberta como instrumento legítimo de política externa.

A arquitetura internacional do pós-guerra assentou num conjunto de compromissos civilizacionais mínimos: a contenção do recurso à força, o respeito formal pela soberania dos Estados e a resolução de conflitos através de mecanismos de concertação internacional. Não se tratava de idealismo ingénuo, mas da assimilação prática das lições deixadas pelas catástrofes do século XX.

Após duas guerras mundiais, o sistema internacional compreendeu que a normalização da agressão unilateral conduzia, invariavelmente, à instabilidade sistémica, à escalada de conflitos e ao colapso das regras comuns. Foi desse consenso — frequentemente contornado, mas ainda assim reconhecido como limite — que emergiram as Nações Unidas, o direito internacional contemporâneo e o quadro jurídico global que estruturou a ordem mundial durante mais de sete décadas.

Esse quadro nunca foi isento de contradições. Conviveu com guerras por procuração, intervenções encobertas e hierarquias informais de poder. Ainda assim, funcionava como referência normativa. Mesmo quando transgredida, a regra precisava de ser justificada, disfarçada, enquadrada juridicamente. Até nos episódios mais controversos do pós-Guerra Fria — como a invasão do Iraque em 2003 — Washington sentiu a necessidade de fabricar uma narrativa legal, por mais frágil que esta se revelasse posteriormente. A imposição militar não era celebrada como virtude; era limitada pelo discurso jurídico e diplomático. Essa barreira normativa começou, porém, a ser deliberadamente removida.

Foi essa fronteira histórica que os Estados Unidos........

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