Saltos altos todos os dias: elegância ou risco silencioso para a saúde feminina?
Durante décadas, os saltos altos foram associados a poder, elegância e afirmação profissional. Muitas mulheres integram-nos no seu dia a dia como parte do seu outfit. Mas será que o corpo acompanha esta escolha sem consequências?
A resposta, do ponto de vista clínico, é clara: não totalmente. O uso diário de saltos — sobretudo acima dos 5 cm — pode alterar de forma significativa o alinhamento e a biomecânica corporal, uma vez que ao elevar o calcanhar, o centro de gravidade desloca-se para a frente. Para evitar a queda, o corpo compensa: aumenta a curvatura da coluna lombar, eleva a tensão na musculatura posterior da perna, e concentra maior pressão na parte anterior do pé. Podemos dizer que à primeira vista, estas adaptações parecem inofensivas, mas o problema surge quando se tornam permanentes. A sobrecarga contínua do antepé favorece o aparecimento de joanetes, calosidades e bolhas. Potencia a sobrecarga articular e compressões nervosas, contribuindo, por exemplo, para o desenvolvimento de um neuroma de Morton. O tendão de Aquiles tende a encurtar, aumentando o risco de tendinopatias. A alteração postural pode contribuir para dores lombares persistentes e, em muitos casos, para fascite plantar. A longo prazo, até os joelhos podem sofrer com o padrão de marcha alterado.
Não pretendo demonizar o salto alto, mas é importante reconhecer que o corpo humano não foi desenhado para permanecer diariamente numa posição inclinada para a frente. O uso ocasional dificilmente será problemático em mulheres sem patologias prévias. Já o uso contínuo e prolongado aumenta o risco de lesão. Na minha perspetiva, não é aconselhável utilizar saltos altos todos os dias. A saúde músculo-esquelética deve estar acima de qualquer imposição estética ou profissional. O equilíbrio é essencial: alternar com calçado de salto baixo (entre 2 e 4 cm), estável e com boa absorção de impacto, permite ao corpo recuperar.
Existem, contudo, estratégias para quem opta por manter o salto na rotina. Algumas recomendações práticas podem reduzir o risco de lesões: preferir saltos até 5 cm e modelos mais largos ou em bloco, que oferecem maior estabilidade ou evitar bicos muito estreitos, os conhecidos stilettos, que comprimem os dedos e favorecem deformidades. Deve-se também escolher calçado com boa palmilha e amortecimento, diminuindo a pressão no ante pé e, se possível e de forma diária, realizar alongamentos dos gémeos e do tendão de Aquiles. Eles agradecem após várias horas de saltos alto. Fortalecer a musculatura do pé e da perna com exercícios específicos e ainda alternar o tipo de calçado ao longo da semana. Pode-se massajar a planta do pé com uma bola, ajudando a prevenir tensão excessiva na fáscia plantar.
São estes pequenos gestos que podem fazer a diferença: retirar os sapatos sempre que possível, mobilizar os tornozelos durante o dia e não permanecer muitas horas seguidas de pé com salto alto. Aconselha-se também uma consulta com o fisioterapeuta que o pode ajudar a prevenir possíveis lesões e aumentar a sua saúde corporal sem sacrificar os saltos altos. A questão não é moda versus saúde. É consciência versus hábito. Elegância não deve significar dor crónica nem lesões evitáveis. O salto alto pode continuar a ter lugar no quotidiano feminino — mas não deve ocupar todos os dias da semana. Cuidar do corpo é, também, uma forma de afirmação.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
