Dos ‘bidonvilles’ ao voto no ódio
Na minha aldeia, a emigração não foi uma palavra abstrata, nem um tema de estatística. Foi uma ausência que se instalou nas casas, nas mesas e nas ruas. Nos anos sessenta, primeiro partiram os homens. Saíam com pouco mais do que uma mala, alguns contactos incertos e a promessa de que, do outro lado da fronteira, haveria trabalho e futuro. Depois foram as mulheres, muitas vezes para se juntarem aos maridos, para trabalhar, para cuidar dos filhos dos outros deixando para trás, muitas vezes, os seus. Só depois chegaram as crianças, arrancadas à aldeia, aos avós, à escola e à língua que conheciam.
Muitos partiram sem documentos, por caminhos que hoje talvez chamássemos “irregulares”, mas que, então, eram sobretudo caminhos de sobrevivência. Não tinham estudos, não dominavam a língua do país de destino e não possuíam redes de proteção. Tinham, isso sim, coragem, necessidade e uma espécie de esperança teimosa que os obrigava a avançar.
Paris foi, para muitos, o nome desse futuro. Mas antes das avenidas, das obras, dos restaurantes e das pequenas empresas, houve os bidonvilles: barracas de chapa, lama, frio, sobrelotação e precariedade. Lugares onde se vivia à margem da cidade, embora se trabalhasse todos os dias para a construir. Homens portugueses ajudaram a levantar prédios, estradas e infraestruturas; mulheres limparam........
