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Jean Monnet no mundo de Trump

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17.08.2026

Isaiah Berlin foi buscar à Grécia Antiga uma imagem improvável para descrever uma divisão persistente da inteligência humana: a raposa sabe muitas coisas, o ouriço sabe uma grande coisa. A simplicidade do contraste é enganadora. Debaixo dela esconde-se uma velha disputa sobre a forma como se olha para o mundo e, sobretudo, sobre a tentação de o tornar mais coerente do que realmente é.

A raposa desconfia das explicações totais. Avança por aproximações, muda de perspetiva sem sentir que está a trair uma ideia anterior e aceita que a realidade raramente se deixa ordenar numa sequência impecável. O ouriço procura um centro de gravidade. Descobre um princípio organizador e passa a reconhecê-lo em quase tudo o que observa. É precisamente essa consistência que lhe confere força e, por vezes, o aproxima do erro. O mundo começa, lentamente, a parecer-se com a teoria.

Berlin encontrou em Tolstói o exemplo mais fascinante dessa tensão. O romancista descrevia a vida com uma atenção quase obsessiva ao detalhe, às contradições, às hesitações que fazem uma personagem parecer uma pessoa. Depois fechava o romance e voltava à procura de uma lei capaz de explicar a História inteira. Poucos escritores conheceram tão intimamente a desordem da condição humana e, ao mesmo tempo, sentiram tanta dificuldade em resignar-se a ela. Talvez por isso Tolstói continue a ser contemporâneo. O desconforto entre complexidade e ordem nunca desapareceu. Apenas mudou de cenário.

A política internacional oferece hoje um desses cenários. É um terreno pouco hospitaleiro para ideias únicas, embora nunca tenha deixado de as produzir. Há sempre uma doutrina pronta para prometer clareza, uma palavra suficientemente ampla para organizar conflitos que nasceram de razões diferentes. Segurança, soberania, hegemonia, contenção.

Uma ou várias chaves?

As palavras mudam menos do que os governos. Mas a metáfora de Berlin há muito deixou de pertencer apenas à história das ideias. Alguns líderes procuram uma chave para cada porta. Outros passam a vida convencidos de que todas as portas se abrem com a mesma chave.

Donald Trump encaixa naturalmente na galeria dos ouriços. Não porque veja pouco, mas porque precisa de um eixo em torno do qual tudo o resto adquira sentido. Os temas sucedem-se, os protagonistas mudam, os cenários deslocam-se do Ártico ao Golfo Pérsico. A narrativa permanece surpreendentemente estável. O comércio, as alianças, as tarifas, a NATO ou a Ucrânia acabam sempre por regressar à mesma pergunta: quem suporta os custos e quem beneficia deles?

Para JeanMonnet, as nações podiam continuar a........

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