Verde Veneno ou o mal-entendido do mundo
O pensamento tem pudores, atrasos, sonolências. Resíduos ainda soltos, conexões mal estabelecidas, excertos de uma tese à espera da sua hora. Julgamos que estamos longe da coisa e, de repente, é a coisa que vem ter connosco. E na maior parte das vezes não entra ao som do clarim, mas quase por distracção. Como um espirro. Houve um dia em que alguém espirrou, soltou um “Atchim”, e esse reflexo involuntário de defesa do sistema respiratório ficou baptizado para sempre. Assim também comigo. Foi quando a Catarina, num princípio de tarde qualquer, na cozinha cá de casa, se saiu com um “verde veneno”, que percebi exactamente aquilo que andava a pensar sem ainda o saber dizer.
Para perceber o que isso era, tenho de recuar até 2022, ano de Os Perdedores. Esse disco já marcava um desvio. Não que antes tivesse havido em mim um caminho higiénico. Mas onde ainda havia fantasia, restos de embriaguez, uma certa confiança nas aparências, começou então a impor-se outra coisa. O esvaziamento. A perda. E foi aí que se tornaram mais nítidos certos eixos espirituais que andavam difusos, como manchas ao longe. Deus deixava de ser paisagem e passava a ser aguilhão. Não atmosfera, mas hematoma, como em Adélia Prado.
Se Os Perdedores era potência, Verde Veneno é acto: uma progressão não direi arbitrária, mas necessária, na qual Deus passa a valer como critério de inteligibilidade e certas palavras antigas retomam a sua precisão.
Não sou só eu, creio. Em Rosalía e em John Maus também se sente esta pressão do religioso sobre a forma, esta insuficiência da linguagem disponível perante qualquer coisa que exige transcendência. Não é que façam música “espiritual”, seja lá isso o que for, mas neles a canção parece dar de caras com a necessidade de salvação sem saber ainda bem pronunciar a palavra. O som, o arranjo, o género musical? Isso serve sobretudo para iludir críticos e distrair músicos. Falo antes do lugar das canções. Do ponto exacto da alma onde uma canção sobe ou não sobe.
Foi isso que aquele “verde veneno” revelou de uma só vez: já não era apenas a memória que estava ferida, já não eram apenas as ruínas do que passou, já não era apenas a elegia do que se perdeu. O próprio ar estava perdido. Este ar de Lisboa. Este ar a cheirar a azeitona. Este ar de cidade antiga e falsificada ao mesmo tempo. Havia coisas que continuavam a chamar-se pelo mesmo nome, mas já não soavam da mesma maneira. Havia promessas ainda de pé, mas com um travo estranho. Não foi uma ruptura. Foi uma infiltração. Coisa pior. A ruptura dói, a ruptura sente-se. A infiltração já cá mora quando damos por ela.
Em Os Perdedores havia, nos restos, uma redenção. Aqui não: os próprios mecanismos do desejo, do progresso, da linguagem estavam — como dizer? — tocados. Coisas de aparência intacta, mas com qualquer coisa de radioactivo por dentro.
Verde Veneno tinha isto e tinha mais. Cabiam nele a juventude e a corrosão, a natureza e a artificialidade, o novo e a sua perversão. Cabia nele a frescura e o seu castigo. Cabia nele aquela forma particular de mal em que o que seduz é precisamente o que contamina. Foi isso que Carlos Maria Bobone identificou quando lhe chamou uma esperança que mata. “Verde veneno” serviu porque já não havia outro vocabulário suficiente para o que germinava.
Depois, há um ponto em que já não basta falar em crise, em cansaço, em ruído ou em decadência. Tudo isso descreve o cenário, mas não o agente. Há uma inteligência na desordem, um método na dispersão, uma vontade activa naquilo que nos quer mais leves, mais livres e mais soltos, e por isso mais indefesos. Há o mal. E talvez o que me interessasse nomear em Verde Veneno fosse não apenas a ruína depois dela acontecer, mas o seu poder de sedução antes de mostrar os dentes.
Verde Veneno não é tanto um disco que fiz quanto uma coisa que se impôs. Não começou quando comecei a escrevê-lo, mas quando percebi o que já lá estava. Do mesmo modo que era inevitável antes de existir, falar dele hoje é inevitável depois de existir. É o disco 100 da FlorCaveira e acabou de ser editado. A partir daqui, fica entregue ao mundo, que é sempre essa mistura de graça e mal-entendido.
Manuel Fúria é músico e vive em LisboaManuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome
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