Fumo e civilização
Fim do ano lectivo: o trânsito amaina, as escolas de surf facturam, os pais recebem recordações compradas pelos filhos que regressam dos passeios da escola. O Sebastião, que fez um pequeno périplo por lugares históricos do nosso país, trouxe-me um cinzeiro a dizer “Portugal”. E abriu uma fenda no mundo.
Em tempos, não havia presente do Dia do Pai mais natural do que um cinzeiro. Depois deixou de ser. Nesses tempos, o mundo era um sítio enevoado. É verdade que não havia tantos oculistas, mas também se fumava mais. Os cafés eram palácios de fumo. Entrava-se e não se via nada. Primeiro vinha o cheiro. Depois o rumor. E só depois o café e a conta. Era a civilização. Digo mais: era a verdade.
O fumo tornava tudo mais real porque impunha a dúvida. Como no amor. Como na morte. Como em tudo o que interessa. O mundo não estava menos presente por estar menos nítido. Pelo contrário: era a névoa que lhe dava profundidade.
Considerem-se as Igrejas. Porque é que as associamos à presença do divino? Pelo Santíssimo Sacramento, naturalmente. Mas também pelo fumo. O homem não é uma pura inteligência a pairar........
