Anticorpos contra a carne
Dia da Criança: o pior dia que existe. Não pelas crianças, coitadas, que já têm desgraças suficientes sem que lhes caia uma efeméride civil em cima. O problema é o calendário civil, essa liturgia para quem deixou de acreditar na liturgia. Tem tudo; só lhe falta Deus, que é uma falta assinalável. No Dia da Criança, todos os adultos se lembram de louvar a infância, o que é, claro, o sinal mais evidente para se desconfiar da data.
O louvor civil pela infância tem vários problemas, um dos quais é não saber deixá-la em paz. E deixar a infância em paz é quase tudo o que de bom se pode fazer por ela. Em tempos não muito distantes, descalçava-se a bota do Dia da Criança com bonés amarelos, rebuçados e uma ida à Feira Popular. Era pouco, dirão. Mas era honesto: a criança recebia açúcar e a possibilidade de desaparecer meia hora no meio da multidão. Ninguém lhe exigia uma visão do mundo.
Hoje é preciso ouvir. É preciso dar voz. É preciso sentar e “falar dos problemas”. E as crianças, sempre à mercê da estupidez de quem toma conta delas, são puxadas para o centro da sala, postas diante de um microfone, e convidadas a confirmar........
