Inventário do Eclipse: O desenho esfumado, pela escritora Lénia Rufino
Desce a rua em direção ao Rato e para um, dois, dez segundos. Retoma a marcha. A entrada do metro ali ao lado e, distraída, segue como se fosse para o Príncipe Real. Para em frente à montra da livraria. Um, dois, dez segundos. Luana, a funcionária, vem à porta e cumprimenta-a, mas ela não se lembra de que a rapariga de cabelo ruivo e franja pequenina se chama Luana, nem que fala com o mel do Brasil, nem que se conhecem por terem passado dias e dias a conversar sobre o Rio de Janeiro, cidade natal de uma, cidade fetiche de outra. Fixa os olhos no chão, como que à procura de algo que lhe permita romper aquele silêncio, levanta o rosto sem que tenha encontrado nada, esboça meio sorriso, dá meia-volta e regressa a caminho do metro. Desce as escadas e, quando chega às portas de controlo, não sabe onde tem o passe. Chega-se para o lado, deixa avançar a fila que se forma rapidamente atrás de si, hora de ponta para toda a gente, o passe, onde será que guardei o passe? Volta a subir as escadas e vê-se de novo em direção à livraria, talvez refazer o percurso lhe refaça a memória. Mete a mão ao bolso e ali está ele, o passe perdido que nunca se perdera. Roda nos calcanhares e repete para dentro sobes as escadas, passas o passe, segues para o lado de Odivelas, sais no Senhor Roubado, Senhor Roubado, Senhor Roubado, de onde raio terá aparecido este nome, Senhor Roubado? Faz como pensou, não se engana no percurso, planta-se na plataforma atrás da linha amarela, pessoas e mais pessoas ao seu lado e, atrás de si, um miúdo de auscultadores nos ouvidos dança chegando-se para lá da linha amarela, e ela assusta-se com o perigo da beira da linha........
