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Portugal deixou de discutir futebol, escolhe trincheiras

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03.10.2026

Cristiano Ronaldo começou por ser um futebolista, tornou-se símbolo nacional e acabou transformado num teste de patriotismo. Jorge Jesus passou de selecionador competente a inimigo público para uns e resistente à monarquia CR7 para outros. Quando uma discussão de futebol chega aos outdoors da Segunda Circular, a outros pontos da cidade e arredores, e o primeiro-ministro telefona aos protagonistas, talvez o problema já não seja quem devia ter jogado contra a Noruega. É a assustadora facilidade com que transformámos opiniões em identidades, adversários em inimigos e as redes sociais numa gigantesca máquina de escolher lados.

Acordámos uma manhã e Cristiano Ronaldo — ou uma péssima imagem dele gerada por IA — tinha vinte metros de altura. Estava na Segunda Circular e em outros pontos da cidade, mão no peito, camisola de Portugal, bandeira nacional e um estádio inteiro atrás dele, naquele género de composição visual normalmente reservado a chefes de Estado, candidatos a primeiro-ministro ou filmes de super-heróis. Ao lado, Jorge Jesus — noutra péssima imagem em que está apenas vagamente parecido com o próprio — aparecia a preto e branco, cabisbaixo, com o ar de quem já tinha sido julgado, condenado e estava apenas à espera de saber em que estabelecimento prisional iria cumprir pena. “OBRIGADO CRISTIANO RONALDO”, dizia o cartaz. “Serás sempre o nosso capitão.” Do lado de Jesus, três cruzes vermelhas e a acusação: falta de sensibilidade, tratamento errado do capitão e “ego inflamado”. Nem o Ministério Público costuma precisar de tanto espaço para sustentar uma investigação; basta-lhe um parágrafo, uma denúncia anónima, mas não vamos por aí. Os outdoors apareceram em Lisboa e Oeiras na sequência da crise entre Ronaldo e o selecionador nacional, dois deles na Segunda Circular e outro junto à Cidade do Futebol. Entretanto, o autor, Fernando Maia, empresário do setor dos outdoors, assumiu a iniciativa e explicou que a pagou do próprio bolso, por “gratidão” a Ronaldo e sem qualquer ligação ao jogador ou à sua equipa. A operação custou-lhe cerca de 1900 euros e Maia já admite levar a campanha até ao Porto, ao jogo de domingo no Dragão. Há quem escreva cartas ao diretor, quem publique no Facebook, quem telefone para os programas da manhã e quem, tendo outros recursos, alugue vinte metros de lona numa das principais artérias da capital. A democracia também é isto. O problema não está propriamente no cartaz. Está no facto de o compreendermos tão bem. Porque aquele outdoor é talvez a imagem mais perfeita do nosso tempo: uma caixa de comentários que ganhou existência física.

Quando Ronaldo deixou de ser apenas Ronaldo

Convém começar pelo princípio. Cristiano Ronaldo não é um futebolista qualquer e fingir que é seria tão absurdo como defender que Eusébio foi apenas um senhor que marcava golos. Ronaldo é, provavelmente, a personalidade portuguesa contemporânea mais reconhecida no mundo, marcou uma geração, bateu recordes que pareciam impossíveis, deu à Seleção uma dimensão internacional inédita e participou nas maiores conquistas da história do futebol português. Em muitos lugares do mundo continua a acontecer aquela pequena experiência nacional de dizermos “Portugal” e ouvirmos imediatamente “Cristiano Ronaldo”. Isso conta. É soft power, notoriedade, memória coletiva e também orgulho. O próprio ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, entrou, entretanto, na conversa para dizer que Ronaldo tem “um impacto enorme” na projeção internacional e chegou a chamar-lhe “a empresa mais conhecida de Portugal”. Estamos, portanto, num território fascinante em que já nem sabemos muito bem se Ronaldo é futebolista, instituição, marca, multinacional ou património imaterial da humanidade. Mas daí até à canonização vai a distância entre um jogador extraordinário e Nossa........

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