Edgar Morin e o cinema: O homem que nos ensinou a sonhar dentro da câmera de filmar
Edgar Morin (1921-2026) morreu e, com ele, desapareceu uma dessas figuras raríssimas que pareciam ter atravessado o século XX não como turistas da História, mas como testemunhas, combatentes, hereges, curiosos profissionais e homens incapazes de aceitar a estupidez organizada como destino natural da humanidade. Morreu aos 104 anos, idade quase bíblica, quase cinematográfica, como se este Matusalém da filosofia tivesse decidido ficar tempo suficiente para ver o mundo moderno nascer, enlouquecer, fragmentar-se, informatizar-se, idiotizar-se em direto e ainda assim continuar a dizer-nos, com uma lucidez quase indecente, que pensar é ligar, relacionar, desconfiar das gavetas, combater os dogmas e fugir da especialização que transforma muitos sábios em técnicos de uma só janela.
Morin foi filósofo, sociólogo, antropólogo, resistente, comunista expulso por não gostar de catecismos, pensador da complexidade, crítico da barbárie e defensor de uma razão que nunca tivesse vergonha da emoção. Mas foi também, para várias gerações de estudantes de cinema, comunicação, jornalismo, sociologia ou ciências sociais, o homem que ajudou a perceber que o cinema não era apenas uma sucessão de planos, atores, argumentos, movimentos de câmara e críticas com estrelas no fim. O cinema era outra coisa. Uma coisa mais profunda, mais envolvente, mais antiga. Era antropologia. Era magia. Era sonho. Era indústria. Era religião sem padres, missa sem altar, espiritismo com bilheteira, psicanálise popular com bilhete comprado à entrada.
A sala escura e o homem imaginário
Um dos seus livros fundamentais, O Cinema ou o Homem Imaginário, marcou sucessivas gerações porque não parecia escrito para castigar o leitor por gostar de filmes. Não era um manual, não era uma sebenta escolar, não era teoria embalsamada. Era um ensaio vivo, poético, erudito sem ser empalhado, inteligente sem aquela pose funerária da inteligência académica que tantas vezes transforma o cinema num cadáver aberto em cima da mesa. Morin não matava o cinema para o estudar. Aproximava-se dele como quem se aproxima de um animal noturno, fascinante, meio doméstico, meio selvagem.
A grande ideia continua devastadoramente simples: o cinema é uma máquina de projeção-identificação. Projetamos nos filmes os nossos desejos, medos, frustrações, virtudes e canalhices; e, ao mesmo tempo, identificamo-nos com aqueles seres luminosos que vivem diante de nós. Somos o herói e o traidor, a vítima e o carrasco, o amante e o cobarde, o santo e o criminoso, a estrela e o figurante, o vivo e o morto. É por isso que o cinema nunca foi apenas entretenimento. Também é entretenimento, claro. Desconfiemos sempre dos que desprezam o prazer como se fosse uma doença burguesa.
Mas o cinema é mais do que isso. É uma forma moderna de duplicação do mundo. O ator é uma pessoa real, mas no ecrã torna-se personagem, fantasma, ícone, desejo, memória, mercadoria e mito. A sala escura é uma caverna moderna onde continuamos a........
