menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

"Amarga Navidad": Almodóvar passou o Natal a fio de navalha. Por José Vieira Mendes

53 0
14.04.2026

Pedro Almodóvar tem uma qualidade que já poucos autores europeus conservam sem parecerem uma paródia de si próprios: consegue regressar sempre ao mesmo território e, ainda assim, dar a sensação de que está a entrar nele pela primeira vez. Há realizadores que, ao fim de quatro décadas, repetem tiques; Almodóvar repete obsessões. Não é a mesma coisa. Os tiques são pobreza de imaginação. As obsessões, quando continuam vivas, são uma forma de fidelidade.

Amarga Navidad, que se estreou em Espanha a 20 de março, e que já vi, marca o seu regresso ao cinema em castelhano depois da aventura internacional de O Quarto ao Lado e apresenta-se, desde logo, como um daqueles filmes que parecem feitos para irritar os detratores, comover os fiéis e deixar toda a gente a discutir exatamente aquilo que mais interessa ao realizador: até que ponto um artista tem o direito de usar a vida alheia para fabricar a sua própria verdade?

É um regresso a casa, mas convém perceber o que significa “casa” no universo almodovariano. Não é apenas a língua, embora isso conte muito. Não é apenas Madrid, embora Madrid conte sempre. Não é sequer a galeria de atrizes, amigas, cúmplices, fantasmas e sobreviventes que alimentam há décadas o seu cinema. A casa de Almodóvar é um lugar mais desconfortável: é o ponto exato onde o melodrama toca a autobiografia, onde a memória se maquilha, onde a dor entra em cena com um casaco berrante e um batom impecável, fingindo que está tudo bem quando evidentemente não está. Amarga Navidad parece regressar a esse lugar com uma frontalidade nova. O próprio realizador descreveu o filme como claramente refletindo a sua figura, cheio de ficção mas sem invenção no sentido profundo do termo, e tem insistido que está “absolutamente presente” nesta história, embora totalmente ficcionado.

Matrioska sentimental

A premissa, por si só, já parece saída da oficina mais reconhecível do cineasta manchego. Elsa, interpretada por Bárbara Lennie, é uma diretora de publicidade cuja mãe morre durante um longo feriado de dezembro. Em vez de viver o luto, enterra-se no trabalho como quem tenta sufocar a realidade à força de agenda, reuniões e produtividade tóxica. Até que uma crise de pânico a obriga a parar e a fugir para Lanzarote com a amiga Patricia (Victoria Luengo), enquanto Bonifacio (Patrick Criado), o seu companheiro de salvação emocional, fica em Madrid. Em paralelo, surge Raúl Rossetti, um realizador e argumentista vivido pelo prolífico ator argentino Leonardo Sbaraglia, e um dos seus fiéis, que escreve precisamente essa história, baralhando realidade e ficção e tornando impossível separar o vivido do inventado. O filme quer falar não apenas do luto, mas da forma como a vida dos outros entra, ou é roubada, para dentro da criação artística.

Ou seja: Almodóvar faz um filme sobre um realizador que escreve um filme sobre uma mulher que lhe serve de espelho, e com isso monta uma espécie de matrioska sentimental........

© Visão