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“A Bronx Tale: One Man Show”: O padrinho, o pai e o miúdo que não quis ser gangster

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12.06.2026

“You’ll understand when you get older”“A Bronx Tale” (1993)

Chazz Palminteri, o ator nova-iorquino que ficou mundialmente famoso pelas suas participações em grandes êxitos de Hollywood como Os Suspeitos do Costume e pela sua peça e filme autobiográfico A Bronx Tale — Um Bairro em Nova Iorque, título em Portugal —, entrou em palco e, durante cerca de 90 minutos, fez aquilo que hoje parece quase obsceno: contou sozinho uma história. Sem ecrãs gigantes a piscarem, sem hologramas, sem bailarinas penduradas em arneses, sem uma banda sonora a pedir-nos emoções à força, sem aquela maquinaria toda que muitas vezes serve apenas para disfarçar a falta de qualquer coisa parecida com alma. Em A Bronx Tale: One Man Show, há um homem, uma cadeira, uma infância, um bairro inteiro enfiado dentro do corpo de um ator de 74 anos e uma frase que devia estar inscrita à entrada de muitas escolas, teatros, partidos políticos, canais de televisão e administrações de empresas: “A coisa mais triste da vida é o talento desperdiçado.”

Uma história de fantasmas com pronúncia do Bronx

A história de Palminteri nasceu no Bronx, nos anos 50 e 60, quando os bairros nova-iorquinos ainda eram pequenos países, com fronteiras invisíveis, padres, mães à janela, gangsters à porta, miúdos a jogar na rua, famílias italianas, preconceitos raciais, lealdades de sangue e aquela confusão moral tão americana e tão universal em que o bem e o mal nunca aparecem vestidos como nos catecismos ou nos livros sagrados. O pai é motorista de autocarro, trabalhador, honesto, duro, decente. Sonny, o mafioso local, é perigoso, sedutor, elegante, paternal à sua maneira torta, dono da rua e de um tipo de poder que, para uma criança pobre, deve parecer uma mistura de magia, justiça paralela e loja de brinquedos proibidos. Entre os dois está Calogero — Calogero Lorenzo Palminteri, o actor, argumentista e realizador que adotou “Chazz” como nome artístico no início da carreira —, o miúdo que viu aquilo que não devia ter visto e que percebeu cedo demais que crescer é, muitas vezes, escolher qual é o adulto que não queremos vir a ser.

O gangster que dizia o mesmo que o pai

A grande inteligência de A Bronx Tale está precisamente aí: Sonny não é apenas o diabo de fato bem cortado e o pai não é apenas o santo doméstico da moral operária. A vida, essa inconveniente, nunca ajuda os argumentistas preguiçosos. O gangster também dá bons conselhos. O pai, por vezes, parece impotente diante da realidade. O crime tem charme, dinheiro, respeito, carros, mulheres, medo. A honestidade tem contas para pagar, suor, orgulho e, muitas vezes, um autocarro para conduzir todos os dias enquanto os outros passam à frente pela porta das traseiras da existência. O problema, como sempre, é que o atalho costuma cobrar portagem. E, no Bronx de Palminteri, a portagem paga-se com medo, sangue, solidão e morte.

Não admira que Robert De Niro, ao ver este espetáculo no início dos anos 90, tenha percebido que ali havia cinema. Não cinema no sentido pobre da palavra, esse cinema que hoje muitas vezes se confunde com franchising, engenharia financeira e bonecos digitais a baterem uns nos outros até à anestesia geral. Cinema verdadeiro: personagens, conflito, memória, culpa, desejo, violência, humor, contradição, rua, destino. De Niro pegou na peça e transformou-a em A Bronx Tale, ou Um Bairro em Nova Iorque, filme que marcou a sua estreia na realização, em 1993. Ele fez de pai, Palminteri fez de Sonny, o miúdo ficou dividido entre os........

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